Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.
Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.
Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.
A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.
Mariana Gouveia
