Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Literatura / Crônicas

BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #22 – A ruptura: O Vento que Move as Nossas Saias.

Ilustração modificada por IA.

Dia desses falamos sobre a Rita Lee e o seu poder de liberdade. Eu era menina quando Leila Diniz se foi. Lembro-me de ver em revistas antigas a foto dela com a barriga de grávida exposta. Talvez aquelas imagens de uma mulher grávida, com a barriga de fora em plena ditadura, tenham ressignificado em mim a vontade de ser mãe. Aos meus sete anos, já gritava em mim o desejo pela liberdade que ela exibia naquelas páginas.

Conheço a sua rebeldia sagitariana e imagino a sua braveza diante das regras impostas. Rita Lee e Leila Diniz sabiam exatamente o preço e a delícia de não caber nos moldes que a sociedade desenha para nós. É uma violência sutil, mas cortante, ver tantas mulheres equilibrando pratos e trancando-se em calabouços invisíveis, apenas para julgar aquelas que decidiram assumir a brancura dos próprios cabelos e o balanço das saias longas. A liberdade alheia sempre assombra quem escolheu permanecer no casulo.

Acho fascinante quando você observa que muitas dessas mulheres só descobrem as próprias asas tardiamente, ou quando finalmente decidem não esperar mais nada para assumir as rédeas da própria vida. O direito de afrontar esses grilhões com a nossa própria verdade é o que nos mantém inteiras. Não estamos aqui para carregar as regras ditadas pelas nossas avós ou os padrões estipulados pelas revistas de shopping; estamos aqui para escrever as nossas próprias linhas, sem dosagens ou moderações.

Acho que um dos meus maiores gritos de liberdade foi pintar o cabelo de vermelho. Mesmo vivendo em outra época, em outra era, fui apontada como subversiva – e senti a mesma cobrança quando anos depois o deixei embranquecer naturalmente – embora dentro de casa eu tivesse mais liberdade do que minhas irmãs — que enfrentaram uma dureza de meu pai que eu desconhecia —, sempre pensei que podia dar as cartas na maneira e no modo de viver, sem ser condenada por isso. Acho que a poesia me deu esse poder para romper casulos, mudar as metamorfoses que me impuseram e quebrar muros para além de mim.

Toda mulher tem uma força revolucionária guardada no peito, mesmo que algumas ainda não saibam disso. Se o mundo insiste em inventar jeitos e gestos para nos deixar desconfortáveis, a gente liga a música bem alto e responde em formato de prosa e poesia. Seguimos espalhando nossas saias coloridas e nossas verdades mais sinceras. Afinal de contas, não somos cartas fora do baralho. Somos as próprias cartas e a jogada é nossa, mesmo com tantos blefes tentando nos impedir.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #21 – A ruptura: Quando as Paredes Viram Vento

Fotografia noturna em plano fechado da fachada de um casarão antigo em ruínas, exibindo duas janelas coloniais com venezianas de madeira desgastadas e uma coluna central de tijolos maciços expostos sob o reboco descascado.

O consultório da minha terapeuta ficava no Centro Histórico, em uma rua estreita com casarões antigos, a maioria tombada pelo patrimônio histórico. Feitos de adobe, com suas estruturas datadas do século passado, eles exibem fachadas em azulejos com as iniciais do dono ou de sua família, em grande parte tradicionais e relacionados à cultura cuiabana. Mas os casarões começaram a ruir e a se deteriorar por falta de manutenção, o que gerou a mudança do consultório para outro ponto.

As ruas com os nomes de Rua do Meio, Rua de Baixo e Rua de Cima são compostas de casas antigas e grande parte faz parte de disputas de herança, inventários ou vendas ilegais. É por elas que passo quando tenho sessões agendadas. Na última vez, muitas das casas pareciam saídas de um filme: desmanchavam ao menor toque. Paredes caídas sobre as calçadas, enquanto outras eram tapadas com placas ou tapumes.

Caminhar pelas calçadas e assistir aos cenários conhecidos virando poeira é uma das formas mais dolorosas de ruptura com o ontem. Ali, o tempo não pede licença e nem respeita as geografias do afeto. Lembrei-me uma tela de Hopper ao avistar uma mulher na janela de uma das casas que teima em ficar em pé, com suas cortinas de renda denunciando que mora alguém ali. Lembrei-me da carta que escrevi a Hopper, porque senti a solidão naquela janela entreaberta, mesmo com aquela mulher de olhar vazio mostrando presença.

Pensei no artista que sabia, como ninguém, pintar o isolamento e a alienação das cidades que crescem sem alma. Olhar aquele velho casarão com suas paredes “derretendo” e o portão ao lado entreaberto me trazia a sensação de olhar para meia casa. Não havia barulho de crianças, nem de cachorros ou gatos. Apenas o olhar triste da senhora e sua cortina de renda dançante, como se estivesse agarrada à única esperança de que as paredes não fossem ao chão. Imaginei a sala, as cadeiras de espaldar reto e um piano velho no canto, sem melodia nenhuma em suas teclas.

Acho fascinante como você encontra as casas dos seus personagens nas colisões inesperadas das suas caminhadas — como a da Alice ou o prédio da Raíssa no pós-CCBB. Para quem escreve, as casas nunca são apenas tijolos; são extensões da pele-alma dos personagens. Ver um teto ser devorado por cupins ou substituído por andares fantasmagóricos nos obriga a transformar a própria escrita em um arquivo histórico dessas ruínas ocupadas pelo mato, onde o ontem e o hoje insistem em se dissolver.

As fronteiras do mundo físico podem até cair sob as placas de demolição — no caso dos casarões daqui, há um projeto que nunca sai do papel —, enquanto a senhora quase não aparece mais na janela quando passo por lá. Mas a primeira lufada de ar puro vem quando percebemos que, nas nossas páginas, o passado permanece intacto. Seguimos fotografando os escombros do tempo e reconstruindo nossos próprios tetos, linha por linha, em paredes que atravessam nossos quintais.

Mariana Gouveia

Afetos · Corredores, Codinome Locura · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #20 – O Gole que Demora na Memória

aspirei o aroma do chá quando a manhã se desenhava aqui e fiquei imaginando as mulheres que você me trouxe pelas mãos, criando em mim uma intimidade a ponto de escrever cartas para elas. Não li esse livro da Lygia, mas foi em homenagem a ela que caminhei no meu lugar, da mesma forma que você fez aí, entre as prateleiras e os quintais da memória. O livro físico guarda o peso, o cheiro e a textura do tempo. É a primeira coisa que faço ao pegar um: cheirá-lo e apertá-lo ao peito. Curiosamente não empresto muito, mas pego bastante emprestado. Sempre devolvo assim que termino de ler; já tenho até as “minhas emprestadoras” de estimação. Os meus, quando já li e reli, esqueço-os em ônibus, em um banco de praça ou doo para as meninas do bairro.

A imagem de Lygia conversando com Mário em 1944 ou segurando a mão de Hilda Hilst em uma cumplicidade de cinquenta anos mostra que a verdadeira literatura é feita de encontros movidos pela paixão. E foi mesmo a paixão pela literatura que nos uniu, mesmo com os 1.540 km que nos separam. Acho que é essa paixão que rasga a alma e nos faz acreditar que um poeta não morre. Eles continuam vivos e viscerais a cada vez que a gente coloca a água no fogo e aceita tomar esse estranho chá com eles através das palavras.

Mário, Cecília, Clarice, Lygia e Hilda… todos eles continuam sentados à nossa mesa, dividindo os galhos mais altos da jabuticabeira ou do pé de ipê, e os rascunhos que insistimos em tirar do casulo. Seguimos encomendando nossos livros físicos e esperando o tempo da infusão, sorvendo lembranças que, de tanto que nos tocam, acabam sendo nossas também.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #19 – A ruptura: A coragem que mora na vulnerabilidade.

Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.

Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.

Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.

A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #18 – A ruptura: Cidades que Cabem em Páginas.

Uma resposta sobre mapas inventados, calçadas e nossas próprias cidades.

Lendo seu texto percebi que somos, antes de tudo, cartógrafos do invisível. Os mapas que traçamos nas memórias atravessam o habitar do Aleph de Borges, a Macondo de García Márquez e a “sua” Teodoro. Quando você visitou a Barcelona de Zafón e descobriu que a cidade dos viajantes não guardava os contornos sombrios do escritor catalão, você tocou no segredo mais bonito da criação: a realidade é só uma matéria-prima que a gente molda com as nossas emoções mais sinceras.

Teodoro é quase a minha cidade da infância. Vi nos personagens tanto em comum com os iguais que moravam em Arenópolis – GO. A igreja, a praça e eu — quase uma Alexandra — com as ruas de pedras e paralelepípedos… Você conseguiu reunir pedaços de tantos lugares em um único chão. A rua da nossa infância é sempre a primeira linha desse traçado; ela finca os alicerces e nos dá a bússola. Não importa se as calçadas são de paralelepípedos onde cresci ou se crescem verticalmente em São Paulo, o papel de quem escreve é exatamente esse: desinventar o cenário do mundo para erguer uma arquitetura que seja só nossa..

Já me encantei com várias cidades dos livros e vi nelas, muitas vezes, resquícios da cidade original. O livro Vermelho por dentro me trouxe uma Paris que sonhei conhecer e que ia muito além da famosa torre. Lua de Papel, além de Teodoro, me faz vagar pelas ruas de São Paulo como se eu fosse me perder logo após a próxima esquina; espiar através das janelas dos edifícios é como me “rever” como Alexandra, desde quando li o livro número um.

Adormecer com Borges e acordar com a certeza de que somos livres para desenhar nossas próprias esquinas é o que dá sentido a este agosto. Seguimos na contramão dos mapas convencionais, inventando os nossos próprios abrigos, página por página. É na escrita onde enfrento o frio sem precisar usar o aquecedor ou uma roupa quente para me agasalhar.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #15 – A mutação: O Catálogo das Nossas Janelas.

No meu bairro não tem prédios. Há apenas alguns pequenos sobrados para além da rua de cima. Durante minha caminhada matinal com o Yoshi por ali, já conheço a maioria dos moradores-personagens. Caminhar pelas ruas antes de o dia começar em rascunhos é quase como folhear um livro que nunca termina. Há agito para dentro dos portões, janelas se fechando, vozes se intercalando entre o acordar de alguém e o chiado da fechadura. Conheço quase todos pelos nomes ou pelos nomes das mães.

Depois da casa laranja do vô, o filho da Marlene sai apressado em sua motoca, o filho da Francisca brinca comigo sobre a derrota do meu time na noite anterior e segue com seu achocolatado ainda por terminar; e com eles, vão saindo pessoas para o trabalho, escola ou alguma consulta médica. Todos os dias crio histórias com alguns deles. Notas mentais que vão se acumulando na mente. Mas para além daqui, os condomínios fechados se multiplicam a cada dia, tal qual os prédios daí.

A sua imagem da cidade como uma grande prateleira, onde cada janela fechada ou aberta guarda um personagem não escrito, me fez acompanhar os seus passos por essa avenida. Há uma beleza dolorosa em perceber o quanto as tenebrosas construções urbanas tentam nos encaixar em formas e jaulas que nada sabem sobre a nossa verdadeira matéria.

Fiquei pensando nessa senhora que olha as nuvens e no rapaz que ajusta a luz para a tela. Estamos todos, de alguma maneira, tentando encontrar um ângulo para não sermos engolidos pela solidão das nossas próprias paredes. Eu mesma vi as janelas e seus esquadros quando estive aí. Enquanto aqui as casas são horizontais e as histórias se passam entre muros e portões, aí as paredes crescem verticalmente.

Você recorre à Susan Sontag para seu refúgio interno não se perder, e eu dou espaço às folhas do quintal… Sei que o quintal te salva aí também. É o que nos impede de virar apenas mais um volume esquecido na estante. Se o bairro é uma biblioteca de narrativas inéditas e secretas, que bom que a gente escolheu não ficar em silêncio. Continuamos arrancando páginas do cotidiano para devolvê-las ao mundo com o nosso próprio formato.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #14 – A mutação: O tecido das nossas armaduras.

Fotografia de minha autoria modificada por IA.

Ler sobre o baú do tuo nonno e a sua coleção de quadrinhos me fez sorrir com a imagem daquela menina fascinada pela Tempestade e pela Jean Grey. Claro que seria a Tempestade a sua heroína, com toda a misticidade que a envolve. Isso me faz lembrar da tempestade que assisti ao seu lado e o brilho nos seus olhos quando os relâmpagos cortavam o céu. Ficamos na sacada a respirar a fúria do céu. Essa é uma das cenas que nunca vou esquecer. Você parecia a própria Tempestade, com os olhos fixos e a voz ecoando a cada trovão.

Os meus quadrinhos eram outros, porque era o que a gente ganhava entre alguns livros. Os meus irmãos usavam as capas montados em cavalos de verdade no pastoreio do gado. A Mulher-Maravilha chegou na minha vida já quase na adolescência, e não como uma figura emblemática de poder feminino. A beleza de Lynda Carter — e mais recentemente Gal Gadot — exibia na tela uma Mulher-Maravilha cujas cenas eu via através de frestas da janela, isso quando a vizinha que tinha televisão não fechava de vez a cortina.

Para mim, a Mulher-Maravilha nessa época era Kaori, que com seu um metro e meio me acolheu em momentos dolorosos na perda de minha mãe. Ela estava sempre atenta a qualquer chamado meu, seja com uma xícara de chá, um colo, mãos estendidas ou um rolinho primavera — sem o biscoito da sorte, porque ela era a própria sorte.

Essas mulheres reais que me cercaram nunca precisaram de capas para comandar seus próprios raios e trovões. Nossas mães, nossas nonnas, e nós mesmas, tantas vezes precisamos endurecer a casca para proteger a sensibilidade que trazíamos por dentro. Olhando para trás, vejo que a vida nos exigiu mutações constantes: deixamos de ser frágeis ou invisíveis para nos tornarmos as anti-heroínas da nossa própria história, com desejos reais e caminhos conquistados a duras penas.

O universo das histórias nos moldou, é verdade, mas foi a coragem de assumir as nossas próprias metamorfoses que nos trouxe até aqui. Toda casca rígida esconde uma força imensa, e escrever com você neste agosto é a prova de que nenhuma de nós tem medo de abrir o baú e libertar os próprios fantasmas.

Bacio,

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #13 – A mutação: O Avesso da Intimidade

Às vezes, dizemos tanto sobre nós e, ainda assim, o essencial permanece submerso. Andei pelo quintal pensando no tempo que levou para nos acolhermos. No primeiro abraço eu já entendi que havia um traço de confiança e respeito. Depois, a gente se reconheceu uma na outra e as conversas no meio das manhãs surgiram como um oásis.

A frase que surgiu aí — esse “quando eu tiver intimidade” dito num sopro — ecoou em mim como um sapato que já não serve mais. O corpo, às vezes, cansa das roupas velhas e das molduras rígidas que nos impõem. Ele pede um novo formato. Um formato que não precise se escancarar para ser visto.

Há quem confunda intimidade com desabamento, como se para tocar o outro fosse preciso demolir todas as paredes. Eu prefiro a arquitetura dos segredos bem guardados. O corpo que pede um novo formato é aquele que aprendeu a dizer “não” às invasões consentidas. É o corpo que escolhe a nudez do silêncio em vez do ruído das confissões desnecessárias.

Vestir-se de mistério não é esconder-se por medo; é proteger o que temos de mais sagrado. Quando as pessoas julgam que a proximidade lhes dá o direito de disparar palavras sem peso, meu corpo recua — sei que com você é igual — e muda de forma, contrai-se, vira bicho que busca a toca. Prefiro a comunhão das entrelinhas, porque tem coisas que não precisam ser ditas e nem compartilhadas. Ultrapassam o senso comum, ou pelo menos o meu senso.

A verdadeira intimidade, talvez, seja a liberdade de permanecermos um mistério um para o outro, sem que isso nos afaste. A ideia de alguém andando nu pelas ruas me arrancou um riso interno no meio do quintal, mas a verdade é que as pessoas fazem isso o tempo todo com as palavras. Desnudam-se de filtros, de delicadeza, achando que o crachá da “intimidade” zera a necessidade do respeitar o que o outro quer e pode ouvir. Saber tudo do outro não nos torna mais próximos; muitas vezes, só nos deixam entediados diante do que é previsível.

A ética do mistério é, no fundo, uma ética de preservação. Em alguns momentos a gente cansa de ser receptor do excesso alheio. Já nos bastam os nossos excessos, esses, guardados em respeito ao outro, porque há histórias que não precisam ser gritadas. Gosto do direito ao inacessível. Que o outro permaneça um território a ser descoberto aos poucos, com o respeito de quem tira os sapatos antes de entrar. Ou de quem espera que a porta se abra para que você seja convidada a entrar.

Mariana Gouveia