Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.
Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.
Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.
Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.
Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?
Mariana Gouveia









