Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #15 – A mutação: O Catálogo das Nossas Janelas.

No meu bairro não tem prédios. Há apenas alguns pequenos sobrados para além da rua de cima. Durante minha caminhada matinal com o Yoshi por ali, já conheço a maioria dos moradores-personagens. Caminhar pelas ruas antes de o dia começar em rascunhos é quase como folhear um livro que nunca termina. Há agito para dentro dos portões, janelas se fechando, vozes se intercalando entre o acordar de alguém e o chiado da fechadura. Conheço quase todos pelos nomes ou pelos nomes das mães.

Depois da casa laranja do vô, o filho da Marlene sai apressado em sua motoca, o filho da Francisca brinca comigo sobre a derrota do meu time na noite anterior e segue com seu achocolatado ainda por terminar; e com eles, vão saindo pessoas para o trabalho, escola ou alguma consulta médica. Todos os dias crio histórias com alguns deles. Notas mentais que vão se acumulando na mente. Mas para além daqui, os condomínios fechados se multiplicam a cada dia, tal qual os prédios daí.

A sua imagem da cidade como uma grande prateleira, onde cada janela fechada ou aberta guarda um personagem não escrito, me fez acompanhar os seus passos por essa avenida. Há uma beleza dolorosa em perceber o quanto as tenebrosas construções urbanas tentam nos encaixar em formas e jaulas que nada sabem sobre a nossa verdadeira matéria.

Fiquei pensando nessa senhora que olha as nuvens e no rapaz que ajusta a luz para a tela. Estamos todos, de alguma maneira, tentando encontrar um ângulo para não sermos engolidos pela solidão das nossas próprias paredes. Eu mesma vi as janelas e seus esquadros quando estive aí. Enquanto aqui as casas são horizontais e as histórias se passam entre muros e portões, aí as paredes crescem verticalmente.

Você recorre à Susan Sontag para seu refúgio interno não se perder, e eu dou espaço às folhas do quintal… Sei que o quintal te salva aí também. É o que nos impede de virar apenas mais um volume esquecido na estante. Se o bairro é uma biblioteca de narrativas inéditas e secretas, que bom que a gente escolheu não ficar em silêncio. Continuamos arrancando páginas do cotidiano para devolvê-las ao mundo com o nosso próprio formato.

Mariana Gouveia

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