Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

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BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Literatura / Crônicas

BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #22 – A ruptura: O Vento que Move as Nossas Saias.

Ilustração modificada por IA.

Dia desses falamos sobre a Rita Lee e o seu poder de liberdade. Eu era menina quando Leila Diniz se foi. Lembro-me de ver em revistas antigas a foto dela com a barriga de grávida exposta. Talvez aquelas imagens de uma mulher grávida, com a barriga de fora em plena ditadura, tenham ressignificado em mim a vontade de ser mãe. Aos meus sete anos, já gritava em mim o desejo pela liberdade que ela exibia naquelas páginas.

Conheço a sua rebeldia sagitariana e imagino a sua braveza diante das regras impostas. Rita Lee e Leila Diniz sabiam exatamente o preço e a delícia de não caber nos moldes que a sociedade desenha para nós. É uma violência sutil, mas cortante, ver tantas mulheres equilibrando pratos e trancando-se em calabouços invisíveis, apenas para julgar aquelas que decidiram assumir a brancura dos próprios cabelos e o balanço das saias longas. A liberdade alheia sempre assombra quem escolheu permanecer no casulo.

Acho fascinante quando você observa que muitas dessas mulheres só descobrem as próprias asas tardiamente, ou quando finalmente decidem não esperar mais nada para assumir as rédeas da própria vida. O direito de afrontar esses grilhões com a nossa própria verdade é o que nos mantém inteiras. Não estamos aqui para carregar as regras ditadas pelas nossas avós ou os padrões estipulados pelas revistas de shopping; estamos aqui para escrever as nossas próprias linhas, sem dosagens ou moderações.

Acho que um dos meus maiores gritos de liberdade foi pintar o cabelo de vermelho. Mesmo vivendo em outra época, em outra era, fui apontada como subversiva – e senti a mesma cobrança quando anos depois o deixei embranquecer naturalmente – embora dentro de casa eu tivesse mais liberdade do que minhas irmãs — que enfrentaram uma dureza de meu pai que eu desconhecia —, sempre pensei que podia dar as cartas na maneira e no modo de viver, sem ser condenada por isso. Acho que a poesia me deu esse poder para romper casulos, mudar as metamorfoses que me impuseram e quebrar muros para além de mim.

Toda mulher tem uma força revolucionária guardada no peito, mesmo que algumas ainda não saibam disso. Se o mundo insiste em inventar jeitos e gestos para nos deixar desconfortáveis, a gente liga a música bem alto e responde em formato de prosa e poesia. Seguimos espalhando nossas saias coloridas e nossas verdades mais sinceras. Afinal de contas, não somos cartas fora do baralho. Somos as próprias cartas e a jogada é nossa, mesmo com tantos blefes tentando nos impedir.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #21 – A ruptura: Quando as Paredes Viram Vento

Fotografia noturna em plano fechado da fachada de um casarão antigo em ruínas, exibindo duas janelas coloniais com venezianas de madeira desgastadas e uma coluna central de tijolos maciços expostos sob o reboco descascado.

O consultório da minha terapeuta ficava no Centro Histórico, em uma rua estreita com casarões antigos, a maioria tombada pelo patrimônio histórico. Feitos de adobe, com suas estruturas datadas do século passado, eles exibem fachadas em azulejos com as iniciais do dono ou de sua família, em grande parte tradicionais e relacionados à cultura cuiabana. Mas os casarões começaram a ruir e a se deteriorar por falta de manutenção, o que gerou a mudança do consultório para outro ponto.

As ruas com os nomes de Rua do Meio, Rua de Baixo e Rua de Cima são compostas de casas antigas e grande parte faz parte de disputas de herança, inventários ou vendas ilegais. É por elas que passo quando tenho sessões agendadas. Na última vez, muitas das casas pareciam saídas de um filme: desmanchavam ao menor toque. Paredes caídas sobre as calçadas, enquanto outras eram tapadas com placas ou tapumes.

Caminhar pelas calçadas e assistir aos cenários conhecidos virando poeira é uma das formas mais dolorosas de ruptura com o ontem. Ali, o tempo não pede licença e nem respeita as geografias do afeto. Lembrei-me uma tela de Hopper ao avistar uma mulher na janela de uma das casas que teima em ficar em pé, com suas cortinas de renda denunciando que mora alguém ali. Lembrei-me da carta que escrevi a Hopper, porque senti a solidão naquela janela entreaberta, mesmo com aquela mulher de olhar vazio mostrando presença.

Pensei no artista que sabia, como ninguém, pintar o isolamento e a alienação das cidades que crescem sem alma. Olhar aquele velho casarão com suas paredes “derretendo” e o portão ao lado entreaberto me trazia a sensação de olhar para meia casa. Não havia barulho de crianças, nem de cachorros ou gatos. Apenas o olhar triste da senhora e sua cortina de renda dançante, como se estivesse agarrada à única esperança de que as paredes não fossem ao chão. Imaginei a sala, as cadeiras de espaldar reto e um piano velho no canto, sem melodia nenhuma em suas teclas.

Acho fascinante como você encontra as casas dos seus personagens nas colisões inesperadas das suas caminhadas — como a da Alice ou o prédio da Raíssa no pós-CCBB. Para quem escreve, as casas nunca são apenas tijolos; são extensões da pele-alma dos personagens. Ver um teto ser devorado por cupins ou substituído por andares fantasmagóricos nos obriga a transformar a própria escrita em um arquivo histórico dessas ruínas ocupadas pelo mato, onde o ontem e o hoje insistem em se dissolver.

As fronteiras do mundo físico podem até cair sob as placas de demolição — no caso dos casarões daqui, há um projeto que nunca sai do papel —, enquanto a senhora quase não aparece mais na janela quando passo por lá. Mas a primeira lufada de ar puro vem quando percebemos que, nas nossas páginas, o passado permanece intacto. Seguimos fotografando os escombros do tempo e reconstruindo nossos próprios tetos, linha por linha, em paredes que atravessam nossos quintais.

Mariana Gouveia

Afetos · Corredores, Codinome Locura · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #20 – O Gole que Demora na Memória

aspirei o aroma do chá quando a manhã se desenhava aqui e fiquei imaginando as mulheres que você me trouxe pelas mãos, criando em mim uma intimidade a ponto de escrever cartas para elas. Não li esse livro da Lygia, mas foi em homenagem a ela que caminhei no meu lugar, da mesma forma que você fez aí, entre as prateleiras e os quintais da memória. O livro físico guarda o peso, o cheiro e a textura do tempo. É a primeira coisa que faço ao pegar um: cheirá-lo e apertá-lo ao peito. Curiosamente não empresto muito, mas pego bastante emprestado. Sempre devolvo assim que termino de ler; já tenho até as “minhas emprestadoras” de estimação. Os meus, quando já li e reli, esqueço-os em ônibus, em um banco de praça ou doo para as meninas do bairro.

A imagem de Lygia conversando com Mário em 1944 ou segurando a mão de Hilda Hilst em uma cumplicidade de cinquenta anos mostra que a verdadeira literatura é feita de encontros movidos pela paixão. E foi mesmo a paixão pela literatura que nos uniu, mesmo com os 1.540 km que nos separam. Acho que é essa paixão que rasga a alma e nos faz acreditar que um poeta não morre. Eles continuam vivos e viscerais a cada vez que a gente coloca a água no fogo e aceita tomar esse estranho chá com eles através das palavras.

Mário, Cecília, Clarice, Lygia e Hilda… todos eles continuam sentados à nossa mesa, dividindo os galhos mais altos da jabuticabeira ou do pé de ipê, e os rascunhos que insistimos em tirar do casulo. Seguimos encomendando nossos livros físicos e esperando o tempo da infusão, sorvendo lembranças que, de tanto que nos tocam, acabam sendo nossas também.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #19 – A ruptura: A coragem que mora na vulnerabilidade.

Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.

Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.

Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.

A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #18 – A ruptura: Cidades que Cabem em Páginas.

Uma resposta sobre mapas inventados, calçadas e nossas próprias cidades.

Lendo seu texto percebi que somos, antes de tudo, cartógrafos do invisível. Os mapas que traçamos nas memórias atravessam o habitar do Aleph de Borges, a Macondo de García Márquez e a “sua” Teodoro. Quando você visitou a Barcelona de Zafón e descobriu que a cidade dos viajantes não guardava os contornos sombrios do escritor catalão, você tocou no segredo mais bonito da criação: a realidade é só uma matéria-prima que a gente molda com as nossas emoções mais sinceras.

Teodoro é quase a minha cidade da infância. Vi nos personagens tanto em comum com os iguais que moravam em Arenópolis – GO. A igreja, a praça e eu — quase uma Alexandra — com as ruas de pedras e paralelepípedos… Você conseguiu reunir pedaços de tantos lugares em um único chão. A rua da nossa infância é sempre a primeira linha desse traçado; ela finca os alicerces e nos dá a bússola. Não importa se as calçadas são de paralelepípedos onde cresci ou se crescem verticalmente em São Paulo, o papel de quem escreve é exatamente esse: desinventar o cenário do mundo para erguer uma arquitetura que seja só nossa..

Já me encantei com várias cidades dos livros e vi nelas, muitas vezes, resquícios da cidade original. O livro Vermelho por dentro me trouxe uma Paris que sonhei conhecer e que ia muito além da famosa torre. Lua de Papel, além de Teodoro, me faz vagar pelas ruas de São Paulo como se eu fosse me perder logo após a próxima esquina; espiar através das janelas dos edifícios é como me “rever” como Alexandra, desde quando li o livro número um.

Adormecer com Borges e acordar com a certeza de que somos livres para desenhar nossas próprias esquinas é o que dá sentido a este agosto. Seguimos na contramão dos mapas convencionais, inventando os nossos próprios abrigos, página por página. É na escrita onde enfrento o frio sem precisar usar o aquecedor ou uma roupa quente para me agasalhar.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #17 – A ruptura: O Desenho das Nossas Penumbras

Bambina mia,

Fazia dias que eu não bebia o ristretto, mas dizem que haverá chuva de estrelas. Então, liguei a cafeteira e, com a xícara em mãos, sentei-me no quintal para acompanhar o céu. Isso me fez lembrar de tantas coisas… Ler a sua missiva na calada da noite me fez caminhar pelas sombras que você tão bem sabe habitar. Há um fascínio quase sagrado no breu. Houve noites em que consegui visualizar imagens no muro: com as folhas do ipê caindo, os galhos formam figuras estranhas no chão que, em alguns momentos, parecem dançar de mãos dadas.

O escuro sempre me fascinou. Talvez porque, na fazenda, as estrelas chegavam bem perto da terra, ou os arbustos para além da estradinha serviam de ajuda ao meu pai para criar as histórias que ele adorava contar. Quando as luzes das casas daqui são desligadas, o quintal muda de configuração e um morcego aparece — o que causa pavor no moço daqui, que usa todas as expressões de “benza Deus”, enquanto o bichinho só quer beber a água açucarada do bebedouro do Chiquinho, meu beija-flor. Isso atiça meu modo escritora em muitas madrugadas.

Eu vi uma mísera estrela cadente e confundi muitas outras com satélites… mas desenhei o Caminho de Santiago com os dedos no ar, rindo ao lembrar daquela lenda de infância que diz que, se apontarmos o dedo para uma estrela, nascem verrugas na mão. Lembrei-me também do cemitério que ficava na rua à frente da rádio em que trabalhei. Costumava brincar com minha irmã, que ficava morrendo de medo dos meus plantões noturnos e dos meus almoços diários por lá. O Seu Lino dividia a marmita dele comigo, e quando eu contava para ela alguma história ligada ao cemitério, ela tapava os ouvidos. Nunca entendi esse medo, mas me divertia assustá-la às vezes.

E a imagem de você, menina, assistindo ao amanhecer sentada no telhado — arriscando o próprio corpo para tocar o céu antes de ganhar uma caneca de leite caramelado —, me fez olhar para o alto. Certas coisas pertencem mesmo à infância, mas o desejo de escalar o invisível continua tatuado em você. O velho relógio que bate as badaladas do passado aí também ecoa do lado de cá. As sombras nas rachaduras que marcam o chão do meu lugar formam desenhos que tento adivinhar o que significam. São as marcas das minhas histórias por aqui. Quase hora de ir para dentro; o Yoshi já me chamou algumas vezes.

O “dia seguinte” sempre chega com sua hora de ouro, mas é na magia das sombras que a gente se reconhece e se desmancha para criar novos formatos. Agosto é esse mês que amarela o quintal com as flores do ipê e deixa tudo em breu quando a noite cai. Não importa se de manhã, dentro do crepúsculo, ou se de noite, dentro do breu: nossas esquinas sempre se cruzam e se encontram.

Bacio,
Mariana Gouveia