Afetos · Crônicas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Guardião do Espelho Invisível

Há um homem que caminha comigo em alguns momentos, embora os meus olhos nem sempre consigam capturar a sua silhueta entre as folhagens do quintal. Ele usa as minhas memórias, conhece o peso exato da minha pressa e sabe, antes de mim, qual folha de erva vou colher para o próximo chá. No espelho do tempo, esse “outro” que Borges tão bem descreveu é o guardião silencioso de todas as versões que deixamos pelo caminho.

Em um outro tempo, foi meu irmão me guiando colinas afora, pela floresta densa até a casa da bá, com medo de qualquer folha que se mexesse. Depois, mais tarde, com a bola de capotão na mão, vigiava meus passos até o riacho. Olho espichado, capim no canto da boca, com um olho quase fechando na espreita dos meus passos. Quando via algo estranho ou incomum, me gritava num “ei” sonoro, apontava o dedo e o bico, e ria com minha surpresa. Anos depois, era eu quem o avisava de qualquer coisa incomum. Acontecia algo bom, era para ele o primeiro para quem eu mandava a mensagem… Às vezes, ainda me pego procurando seu nome na lista de contatos para ligar.

Esta semana eu o senti no quintal. Vi as sementes que ele me deu darem flores… Lembrei-me das vezes em que ele preenchia o silêncio apenas com o olho torto, tentando fazer a piada engraçada de que ninguém ria. Olho para o quintal, para a rosa do deserto que resiste ao sol cuiabano, e percebo que o “outro” que me habita é feito justamente desse caminho que trilhei colina acima, riacho abaixo, paiol cheio de milho e ele lá, evitando que eu me machucasse com qualquer coisa. Hoje, ele é apenas essa beleza que o quintal inventa em cada folha ou flor de sementes que ele me enviou. É a menina que andava de cavalo na lida com o gado conversando com a mulher que hoje borda tecidos e alimenta a gata abandonada do terreno baldio duas casas acima. Não somos uma unidade estática; somos um fluxo constante de começos, princípios e saudades.

Em algumas manhãs ou noites, o filho dele me chama e me fala quase as mesmas coisas que ele dizia. Duas ou três frases, como se dissesse: estou aqui, no lugar do meu pai, a cuidar para que esteja sempre segura. E é assim que me sinto.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Outubro Literário

O Compasso das Horas Primeiras

Há quem meça a vida pela exatidão dos compromissos, pelas páginas viradas com pressa ou pelo som mecânico dos alarmes que despertam as cidades. Eu prefiro as medições analógicas, aquelas que acontecem no exato milagre em que o dia decide se inaugurar, ainda sem nome, na fresta da janela. Para quem tem alma de bordar tecidos, o tempo não corre em linha reta; ele se esparrama manso, feito o café que começa a perfumar o ar da cozinha.

A madrugada tem um idioma próprio que só os madrugadores conseguem traduzir. É o momento em que o silêncio do quintal é tão denso que quase se pode ouvir o balé das sementes de ipê tocando o chão. Os pássaros começam a acordar o dia. Gosto desse rito de inaugurar a manhã sem nenhuma pressa, com os pés descalços tocando a terra que ainda guarda o frescor da noite. Caminhar até o fogão, ferver a água e segurar a xícara de café é o meu princípio de tudo. Não um começo brusco, mas um alinhavo sutil entre o sonho e a vigília. Depois, caminhar com Yoshi pelo quarteirão da rua de cima, vendo as nuvens se moldando ao som do vento.

Dizem que cozinhar nas primeiras horas é convocar quem veio antes de nós. Sinto isso quando mexo o café ou quando o aroma do alecrim me traz, de repente, a lembrança do chá para curar alguma dor que minha mãe ou minha bá faziam. Há uma linhagem de mulheres que habita o avesso dos meus gestos cotidianos. Sinto isso quando a própria luz da manhã se aconchega no muro, cobrando de mim apenas a coragem de simplesmente pertencer ao instante.

E assim como há uma reverência na hora primeira, há um recolhimento sagrado quando a tarde cai e as sombras começam a disputar espaço com as plantas do quintal. É quando o ciclo se fecha, a agulha de metal descansa entre as linhas e a gente percebe que o verdadeiro experimento não foi cruzar grandes horizontes, mas ter sobrevivido com delicadeza a mais um quadrante de tempo. O dia termina como começou: no compasso do silêncio, portão adentro, onde o presente aceita dividir a mesma mesa com o passado e o futuro, e os pássaros se recolhem procurando seus ninhos.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta às Linhas do Idioma Invisível

Meu caro Borges,

Nesse outubro onde vagamos por seu Outro, deparei-me com minha própria confusão, não fosse apenas por me deixar guiar pelos mapas que recebi, que me indicavam caminhos dentro da poesia ou de uma bússola imaginária. Há um norte que os mapas geográficos insistem em ignorar, mas que o peito reconhece no primeiro sopro de vento da manhã. Será que, se algum dia eu me encontrasse comigo mesma, daria sentido para a solidão dos quintais? Será que eu saberia descrever o pôr do sol e falaria dele de forma poética?

Às vezes, em alguns momentos, parece que começo a esquecer de coisas que vivi para além da rua de cima, e o que fica em mim são as memórias da infância. Alguém me disse que o que resta são os momentos felizes, mas o que é estranho é que me lembro também de episódios difíceis e que me afetaram para sempre. Uma linha contínua de momentos que repasso dentro do seu conto, como se fosse um enredo que outra pessoa viveu, e não eu.

O medo elemental do impossível me fez rir… e as linhas do idioma invisível pareceram a pipa que alguma criança da rua teima em empinar. O barulho me incomoda, e o clep clep da pipa rodopiando me faz pensar que é essa linha que me faz travar esse diálogo com você. Já te escrevi algumas cartas e as reli hoje. Em uma, eu falo sobre meu irmão e um momento delicado. Nem sei se devo esperar compaixão sua. Apenas te contei a história e, dias depois, ele se foi. Em outra, falei sobre as tardes no meu quintal e nem pensei se devia compartilhar esses momentos meus com você, como se fosse apenas a leveza de quem aprendeu a admirar o que você escreve, e não o homem que me foi apresentado. Mas, vá lá! Acho que posso fazer essa concessão.

Se todas as coisas deste mundo são palavras de um idioma misterioso que estamos sempre tentando decifrar, a minha escrita tem sido a tentativa de traduzir o silêncio. Talvez eu gostasse mais do seu outro mais novo. Me soou mais aberto ao rompante de entender aquele tempo. Os dois, no mesmo lugar, em tempos diferentes. Me sinto assim, às vezes, com uma certa bambina minha. Ainda assim, espero que o nosso norte permaneça assim: invisível aos olhos apressados, mas inteiramente nítido para quem sabe ler o avesso do tempo. Vamos aguardar os dias de outubro e, dentro de tudo que você viveu, que a gente possa resgatar o que há de melhor em você: sua escrita.

Abraço,
Mariana Gouveia

Das rotinas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Tempo Medido em Flores de Ipê

Há cidades que exigem de nós a urgência da calçada, o ruído dos motores e o café tomado em pé, na pressa de um balcão de esquina. Cidades que se desenham em mapas de experimentos urbanos, onde cada ponto de ônibus é um laboratório de gentes e esperas. Também fico no ponto de ônibus observando as pessoas, talvez à cata de personagens para ocupar o tempo enquanto ele não vira a esquina. Sempre encontro uma caçadora de assunto que me faz tirar os fones de ouvido, colocados exatamente para evitar assuntos.

No meu lugar, o tempo tem outro compasso que é medido pelas folhas, sementes e flores do ipê. Depende da estação ou da vontade dele. Percebo que em alguns momentos do dia ele derrama suas sombras sobre o muro, e parece um balé a tentativa desse leve desfolhar. Em outros, ele se transforma em um tapete dourado que me dá medo de pisar e desmanchar esse rito da pétala caindo como se dançasse. Há uma engrenagem diferente dentro do quadrante do meu muro que sabe a hora de florescer ou silenciar.

Aqui, depois que fiquei sem pegar ônibus todos os dias, percebo as pessoas da minha rua. Logo após a casa da direita, há um terreno baldio onde abandonaram uma gata — e passei a alimentá-la — e, enquanto levo água e comida nas vasilhas que preparei para ela, vejo através de janelas olhos curiosos que ficam me vigiando. A mulher da casa da frente e sua filha — que parecem ser a mesma pessoa, de tão parecidas — fingem catar alguma coisa fora do portão à espera de que eu fale qualquer coisa. E daí vêm as perguntas aleatórias, como se fosse um interrogatório.

Por isso, prefiro o quintal portão adentro. A minha geografia já está gravada no peito, no cheiro do alecrim que trago nos dedos e na certeza de que os mapas e as bússolas sempre me levam ao que o universo se propõe. Por aqui, as pétalas — talvez as últimas — do ipê se deitam sob meus pés e se deixam ser leveza apenas. E o verdadeiro experimento continua sendo o de simplesmente pertencer ao silêncio.

Mariana Gouveia

Crônicas · Das palavras das cartas · Ensaios Intimistas · Literatura · Outubro Literário

O caís do meu quintal

Bambina mia,

Peguei o mapa que sinaliza a minha cidade e as lembranças me trouxeram uma menina de tranças que sempre foram feitas pela minha bá e pela mãe. A bússola que meu pai sempre carregava no bolso fazia com que ele não perdesse o caminho – ele sempre repetia essa frase, como se com isso reafirmasse um compromisso feito em algum momento e alguns diários da infância sempre me mostram a menina que fui e se transformou na mulher que sou agora.

Arrancar a folha de setembro do calendário é sempre um rito tardio por aqui também. O moço daqui precisa de um tempo para realinhar os dias marcados para a contagem das horas extras e o dia da troca do gás. O tempo teima em se acumular nas paredes antes que tenhamos a coragem de lhe dar um novo nome. Mas agora é outubro. Um outubro-outro, como você bem disse, que chega trazendo Borges pela mão e nos sentando à mesa.

Enquanto você caminha desorientada pelas ruas de concreto de São Paulo, tentando em vão explodir o pensamento, eu me sento aqui no quintal. O café esfria no ritmo em que o dia se organiza. Olho para o horizonte que você espiava da janela com sua luneta de menina e me pergunto: onde vão parar os navios que cruzam o horizonte do nosso caderno vermelho?

A sua agulha imantada aponta para Borges; a minha, inevitavelmente, aponta para o reflexo que a sua escrita deixa no meu cais. No conto “O Outro”, as duas versões do escritor se encontram em latitudes distantes — uma em Boston, outra em Genebra —, separadas por anos de memórias e esquecimentos. Nós duas nos encontramos hoje entre a sua pressa urbana e o meu silêncio de quintal. O mar da sua infância, com o cheiro salgado e o arrulho das gaivotas, chega até aqui como um eco manso. Quase chega até mim o cheiro de maresia. Lembrei-me de que o curso do oceano nunca chega ao rio. É sempre o contrário e quando vi o mar pela primeira vez todas as coisas que você me disse sobre ele vieram como ondas em meu coração.

Você diz que falhou na missão de aprender a não-pensar. Que bom. Se o pensamento parasse, o que seria da nossa alquimia? São Paulo pode ser esse seu ponto vermelho de experimentos, mas a literatura é o mapa inteiro. É o território invisível onde a menina do telhado e a mulher que escreve hoje dividem o mesmo banco de praça. Aqui, as tranças deram lugar ao cabelo curto – embranqueceu – e quem as fazia voam em algum ponto além do que se pode ver. Mas confesso que sinto.

Que outubro seja manso, sim. Repito com você três vezes, feito desejo cigano. Mas se o desejo falhar e o mundo continuar barulhento aí fora, saiba que o lado de cá continua sendo porto. A agulha mudou de direção, o mês virou, mas a nossa linha de memória permanece intacta. Entremos, pois, no labirinto. Te dou a mão. Vem comigo?

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável

Setembro se despede na folha do calendário deixando na boca o gosto bom das colheitas maduras. Olhar para as trinta páginas escritas ao longo deste mês é compreender que o tempo não corre em vão quando escolhemos deixar as palavras soltas para além dos envelopes coloridos. Ouço o balanço final sobre os dias que ganharam corda rápido demais, sobre o carinho que cruzou o oceano e sobre o modo como convertemos os nossos diálogos em envelopes de afetos, e imediatamente sinto o coração pulsar na mesma frequência mansa de quem sabe que ganhou um abraço, mesmo que de longe.

Nossa literatura partilhou da mesma mesa durante estas quatro semanas de Primavera Literária. A estação e seu equinócio transformaram as palavras em brotos de flores por aí, abrindo caminhos de claridade enquanto estendíamos pontes que atravessaram estados e fusos horários. Dividir o sal com os mestres, resgatar o erotismo esquecido de Gilka ou inventar missivas fictícias para as personagens que nos habitam a derme foram rituais que reavivaram os meus próprios ontens e me devolveram à verdade do meu chão. Abri um sorriso aqui ao imaginar o seu sorriso aquarelável. Uma brisa suave soprou pelo quintal.

Quando os pássaros organizam os seus últimos sobrevoos deste mês e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, fecho este ciclo com a certeza mansa de quem soube ser árvore. Grazie, bambina, por partilhar o mar nada calmo da sua escrita com o meu quintal. O mês termina, os ponteiros se acertam, mas os laços que costuramos com o fio do afeto continuam intactos, pulsando no centro de cada linha que ainda vamos inventar. É logo ali. Outubro já é amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

As Margens Compartilhadas e as Marés da Escrita

Mergulhar nas águas de uma ficção para habitar outras paisagens é o único refúgio possível para quem traz o peito cheio de ausências e nostalgias. Compreendo perfeitamente essa infância de portas fechadas e cantos silenciosos, onde o objeto livro se apresentava como o único território seguro diante do barulho do mundo lá fora. Quando você relata esse modo visceral de se apoderar das páginas pelo tato, rascunhando impressões nas margens e brigando com as personagens, vejo o espelho exato de um rito que também me fundou como leitora antes de me converter em escritora.

Nossa literatura é feita desse mar literário nada calmo, mas a beleza do nosso percurso está justamente no encontro dessas correntes. Passamos anos devorando os volumes alheios, misturando tudo o que provamos, até que a urgência de colocar a nossa própria carne no papel nos fez lançar os nossos próprios barcos. É bonito perceber que, ao compartilharmos essas travessias diárias aqui, atravessando quintais, criamos um cais compartilhado. Ler os seus abismos e responder a eles com os meus pedaços de terra não é apenas um exercício de estilo; é cultivar uma comunidade de afetos onde as solidões se reconhecem e se acolhem mansas.

Os livros que se acumulam nas nossas prateleiras guardam histórias que vão muito além dos enredos impressos. Alguns são velhos companheiros que trazem as marcas dos nossos ontens; outros, recém-chegados, esperam o instante exato em que os nossos dedos vão decifrar o seu mistério. Quando abrimos esse lugar de diálogo, permitimos que outras pessoas também naveguem conosco, transformando o ato solitário de ler em uma ponte estendida sobre a distância de estados e fusos horários.

O meu passado aterrissa no seu futuro e, enquanto coloco a água para ferver para um chá e acompanho o movimento sutil da paisagem que se recolhe, celebro a caligrafia que nos uniu na mesma margem. Sigo firme no meu quadrante, segurando a minha linha de afeto e grata por partilhar esse oceano de palavras com você.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Engrenagem da Memória e as Heranças do Chão

Bambina mia,

Aconteceu um silêncio insano nessa manhã de setembro aqui, e o tique-taque do relógio da sala me fez pensar no carrilhão do tuo nonno e naquele setembro que desfez a casa. Imediatamente me pego espiando as heranças intangíveis que os meus próprios mais velhos deixaram plantadas na minha derme. Existe uma contagem de tempo que não obedece ao zunido dos relógios dos homens ou ao calendário oficial das estações. Nosso compasso mais verdadeiro é aquele que ressoa no lado de dentro, ativado pelo perfume de um cômodo antigo, pelo calor de um prato de caldo no inverno da alma ou pela silhueta de quem um dia nos ensinou a esticar os braços em direção ao invisível.

Quando você compartilha comigo a canção que está ouvindo, traz a trilha sonora para o meu quintal. Quase sempre ela me atinge na mesma emoção que a tua. E quando falamos de chás, do nonno, da nonna, da lua, é como se eu estivesse lá… Olhos vidrados nas suas histórias e momentos. As tuas memórias reavivam as minhas. Lembro-me dos rituais da fazenda, das vozes que cantavam versos prediletos na soleira e das trocas silenciosas de folhas secas que hoje repousam esquecidas no fundo dos meus volumes prediletos de poesia. Nossos livros favoritos guardam esses encontros interrompidos, essas conversas sobre autores que não houve tempo de concluir, mas que permanecem vibrando em cada página que folheamos.

Não me perco das datas de vida e morte porque sei que a literatura é o território sagrado onde os ontens colecionáveis se recusam a apagar. Uma porção de nós se despede a cada porta que se fecha e a cada plataforma de estação que se esvazia, mas a palavra escrita opera a sua própria alquimia de ressurreição. Toda vez que a saudade acena na caligrafia sutil dos dias, o cenário se reinventa com cores conhecidas, provando que nunca estamos sós enquanto houver herança de afeto para segurar o horizonte.

Nesta manhã de silêncio que só é rompido pelo tique-taque do relógio da sala e pelo chamado do bem-te-vi que pede a comida de todo dia, enquanto preparo o chá e observo a paisagem se acomodar, acolho o eco de tudo o que foi bom e permaneceu. Me junto às suas lembranças e ao seu renascimento cada vez que a palavra nonno te abraça.

Bacio
Mariana Gouveia