Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #22 – A ruptura: O Vento que Move as Nossas Saias.

Ilustração modificada por IA.

Dia desses falamos sobre a Rita Lee e o seu poder de liberdade. Eu era menina quando Leila Diniz se foi. Lembro-me de ver em revistas antigas a foto dela com a barriga de grávida exposta. Talvez aquelas imagens de uma mulher grávida, com a barriga de fora em plena ditadura, tenham ressignificado em mim a vontade de ser mãe. Aos meus sete anos, já gritava em mim o desejo pela liberdade que ela exibia naquelas páginas.

Conheço a sua rebeldia sagitariana e imagino a sua braveza diante das regras impostas. Rita Lee e Leila Diniz sabiam exatamente o preço e a delícia de não caber nos moldes que a sociedade desenha para nós. É uma violência sutil, mas cortante, ver tantas mulheres equilibrando pratos e trancando-se em calabouços invisíveis, apenas para julgar aquelas que decidiram assumir a brancura dos próprios cabelos e o balanço das saias longas. A liberdade alheia sempre assombra quem escolheu permanecer no casulo.

Acho fascinante quando você observa que muitas dessas mulheres só descobrem as próprias asas tardiamente, ou quando finalmente decidem não esperar mais nada para assumir as rédeas da própria vida. O direito de afrontar esses grilhões com a nossa própria verdade é o que nos mantém inteiras. Não estamos aqui para carregar as regras ditadas pelas nossas avós ou os padrões estipulados pelas revistas de shopping; estamos aqui para escrever as nossas próprias linhas, sem dosagens ou moderações.

Acho que um dos meus maiores gritos de liberdade foi pintar o cabelo de vermelho. Mesmo vivendo em outra época, em outra era, fui apontada como subversiva – e senti a mesma cobrança quando anos depois o deixei embranquecer naturalmente – embora dentro de casa eu tivesse mais liberdade do que minhas irmãs — que enfrentaram uma dureza de meu pai que eu desconhecia —, sempre pensei que podia dar as cartas na maneira e no modo de viver, sem ser condenada por isso. Acho que a poesia me deu esse poder para romper casulos, mudar as metamorfoses que me impuseram e quebrar muros para além de mim.

Toda mulher tem uma força revolucionária guardada no peito, mesmo que algumas ainda não saibam disso. Se o mundo insiste em inventar jeitos e gestos para nos deixar desconfortáveis, a gente liga a música bem alto e responde em formato de prosa e poesia. Seguimos espalhando nossas saias coloridas e nossas verdades mais sinceras. Afinal de contas, não somos cartas fora do baralho. Somos as próprias cartas e a jogada é nossa, mesmo com tantos blefes tentando nos impedir.

Mariana Gouveia

Deixe um comentário