
O consultório da minha terapeuta ficava no Centro Histórico, em uma rua estreita com casarões antigos, a maioria tombada pelo patrimônio histórico. Feitos de adobe, com suas estruturas datadas do século passado, eles exibem fachadas em azulejos com as iniciais do dono ou de sua família, em grande parte tradicionais e relacionados à cultura cuiabana. Mas os casarões começaram a ruir e a se deteriorar por falta de manutenção, o que gerou a mudança do consultório para outro ponto.
As ruas com os nomes de Rua do Meio, Rua de Baixo e Rua de Cima são compostas de casas antigas e grande parte faz parte de disputas de herança, inventários ou vendas ilegais. É por elas que passo quando tenho sessões agendadas. Na última vez, muitas das casas pareciam saídas de um filme: desmanchavam ao menor toque. Paredes caídas sobre as calçadas, enquanto outras eram tapadas com placas ou tapumes.
Caminhar pelas calçadas e assistir aos cenários conhecidos virando poeira é uma das formas mais dolorosas de ruptura com o ontem. Ali, o tempo não pede licença e nem respeita as geografias do afeto. Lembrei-me uma tela de Hopper ao avistar uma mulher na janela de uma das casas que teima em ficar em pé, com suas cortinas de renda denunciando que mora alguém ali. Lembrei-me da carta que escrevi a Hopper, porque senti a solidão naquela janela entreaberta, mesmo com aquela mulher de olhar vazio mostrando presença.
Pensei no artista que sabia, como ninguém, pintar o isolamento e a alienação das cidades que crescem sem alma. Olhar aquele velho casarão com suas paredes “derretendo” e o portão ao lado entreaberto me trazia a sensação de olhar para meia casa. Não havia barulho de crianças, nem de cachorros ou gatos. Apenas o olhar triste da senhora e sua cortina de renda dançante, como se estivesse agarrada à única esperança de que as paredes não fossem ao chão. Imaginei a sala, as cadeiras de espaldar reto e um piano velho no canto, sem melodia nenhuma em suas teclas.
Acho fascinante como você encontra as casas dos seus personagens nas colisões inesperadas das suas caminhadas — como a da Alice ou o prédio da Raíssa no pós-CCBB. Para quem escreve, as casas nunca são apenas tijolos; são extensões da pele-alma dos personagens. Ver um teto ser devorado por cupins ou substituído por andares fantasmagóricos nos obriga a transformar a própria escrita em um arquivo histórico dessas ruínas ocupadas pelo mato, onde o ontem e o hoje insistem em se dissolver.
As fronteiras do mundo físico podem até cair sob as placas de demolição — no caso dos casarões daqui, há um projeto que nunca sai do papel —, enquanto a senhora quase não aparece mais na janela quando passo por lá. Mas a primeira lufada de ar puro vem quando percebemos que, nas nossas páginas, o passado permanece intacto. Seguimos fotografando os escombros do tempo e reconstruindo nossos próprios tetos, linha por linha, em paredes que atravessam nossos quintais.
Mariana Gouveia