Afetos · Das rotinas · Literatura / Crônicas

BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Das rotinas

305 – e os dias contam minha cidade

Cuiabá vai além das palavras quando amanheço… Suas rotinas entre as ruas que atravessou… O pão, em algumas janelas – ainda – leva meu pensamento para a minha meninice. O jornaleiro que agora usa uma moto cresceu. – virou homem, o menino.
As árvores se eternizam nos quintais. Outras, perdem espaço para o novo.
Cuiabá incendeia os dias em seu calor habitual ao mesmo tempo que aconchega aos que aqui chegam. É ponto de partida e de chegada. É novo e velho junto, mostrando uma senhora que teve de se adaptar ao tempo. O moderno se aliando ao antigo…
Um precisando do outro para se encontrar. Cuiabá me viu feliz, me viu chorosa, me viu sonhar. Me acolheu em suas ruas onde a poesia caminha ao meu lado. A cidade me dá a magia dos seus amanheceres… me oferece colo em suas paisagens que se renovam a cada dia. Tudo é novo todo dia. Tudo é o que já era dentro do que posso explicar.
Em seus 305 anos, Cuiabá é esse braço aberto para te abraçar.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia

Das rotinas

Dos dias translúcidos de abril

Virou personagem dentro da história. O olho a transparecer a vida – transparente – ali. O homem a arrastar o saco onde continha lições de cada dia. Tão visível o medo ligado à coragem no vulto da esquina. Repete o mantra de ontem mais por obrigação do que por vontade. As palavras revividas, translúcidas as asas que esqueci em casa.
O excesso sentido lá atrás… Renasce na página seguinte do poema que leu. O jardim suspenso, dentro da asa… translúcida.

A transparência era a palavra líquida do dia. Transformava em água – ou lágrimas – a ausência… Rabiscava o nome em letras feitas no ar, que se apagavam na inconveniência das horas. Contou com a sorte do dia no horóscopo das flores. Algumas sementes não germinam ao acaso. Contou sua história como exemplo de amor. Virou vilã dentro da própria dor.

Mariana Gouveia

Das rotinas

dos tempos das sementes

A semente era preparada meses antes do começo das chuvas… o cheiro ainda permanece nas lembranças… O café coado enquanto se prepara o arroz para plantar, o rádio ligado no programa favorito, a marcação do primeiro lote… tudo gerava a gestação do que nasceria tempos depois… Elas eram escolhidas a dedo pelo pai, que sabia exatamente qual lote seria usado no ano seguinte e assim por diante. O campo do capim dourado a aguardar as novas sementes e o capim colonião que logo iria virar pasto para o gado durante o período de seca e cama para os insetos que inevitavelmente viriam para ali. A grama verde a escoar gotas e abrir caminho durante a madrugada – que era a hora exata de sair para o campo para a plantação – e logo depois e depois os brotinhos iriam começar a aparecer e dali, do alto do morro, ver a natureza cumprindo seu destino de vida.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A primeira vez em que o amarelo gerou a noite

O amarelo desbota na tarde quente. A árvore antecipa seu dourado antes do tempo. Cabia dimensões de estrelas na palma da mão. Ela quer falar sobre asas. Repete perguntas do ano passado. Distrai-se olhando pela janela. Eu falo do tempo lá fora.

Reconto as mesmas historias e ela acha graça – não se lembra do que contei – da borboleta e das rotas delas no meu quintal. O crepúsculo é logo ali e me perco no silêncio…

Aprendi a desenhar as fugas e respiro diante da tarde que se vai.
O relógio antecipa a partida e o vento carrega o amarelo para a noite.

Quem sabe, eu volte amanhã.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

22 – levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma.

A manhã acorda dentro dos meus sintomas. Sigo rua acima e vejo bancos de praça sem ninguém, uma padaria que não abriu, o armazém abandonado da rua de cima… uma calma desconhecida de um vai e vem das meninas do clubes – que hoje não vieram – o pé de ipê que floriu temporão. E eu, que vago em madrugadas insanas nas ruas afora de mim, e parece que todos dormem, menos eu.

Me comove o gato no telhado – só a silhueta – e o cão que me segue até o ponto de ônibus. E fica ali, como se dissesse que me espera amanhã.

Penso em quando o sol nasce, logo além da janela do ônibus e entre árvores os raios me convidam para essa calmaria de dia. O calor ultrapassa recordes diariamente e eu sigo, enquanto todos seguem atentos ao que diz o horóscopo, a previsão, as melhores cenas da novela de ontem, as séries em ascensão e eu só penso na espera do doguinho que nem sei o nome, que nem me prometeu, mas sei que estará me esperando manhã.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

10 – Planos e projetos que não saem do papel

Parece que as folhas que vejo pelas ruas não perdem a leveza do toque. Enquanto caminho penso em outras folhas – as que não escrevi – e nos planos e projetos que não saíram do papel. Faltam poucos dias para o início de um novo ano e mesmo não tendo feito uma lista, haviam notas mentais de coisas que foram ficando para trás. Deixaram de ter a importância devida ou outras mais urgentes, se impuseram como prioridade Os pássaros ignoram esse tempo dentro da vontade de voo e eu me encanto com o pátio rosado da universidade, com as flores do ipê temporão. Quase cheguei a catalogar cada folha dele, que se tornava miragem em outros meses que não esse. Olho para a árvore agradecida e abraço o tronco da árvore que amanhã não terá mais nenhuma flor. Todas irão se desgrudar dela e o vento levará a flor empurrando–as em direção ao muro, com seu grafite feito pelo menino que fez a minha tatuagem como se desenhasse um dos meus bordados. Ainda tenho uma bala de doce de leite na bolsa e a palavra doce me abraçará amanhã. Talvez, você volte com a saudade amarrotada, desdobrando meus envelopes rasgados feito tsurus de papel. Talvez, desses envelopes saia um coração laranja. Talvez essa seja a carta de duzentos gramas de palavras, caso a saudade aperte. Talvez o ônibus se atrase e eu possa acompanhar o movimento da flor rosada a dobrar a esquina da rua de cima. Talvez a senhorinha que me chama de anjo – a que pega o ônibus na saída do bairro – para qual eu ofereço o banco acha graça de descobrir que escrevo poemas…  ri quando me pede autógrafo em um livro meu que achou por aí. Talvez. Se eu dissesse amanhã que a previsão do tempo seria uma procissão de estudantes com cartazes de protestos e que eu me encantaria com as borboletas nas flores do ipê que dourou a rua de cima e que deixei um livro no banco do ônibus e quem achou foi justamente a senhorinha que me chama de anjo, você diria que eu pintei um dia feliz? Descobri numa outra rua que a calçada era forrada com as flores rosas, do mesmo ipê que fotografei outro dia e que perguntei infinitas vezes onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza e essas árvores que dão sonhos e histórias que nunca te contei… histórias desses corredores onde a dor é quase bonita diante da força de cada um que escreveu a frase: venci. Em letras coloridas e risos fáceis de quem perdeu o cabelo e nunca perdeu a fé. Eu diria que eu apenas tive impressões do dia seguinte. Sem planos e projetos. Apenas um dia de cada vez.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas

Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão

Definhava nas horas do dia, em frente à casa abandonada da rua lateral. O abandono era costume nas noites em que fazia sol.

A grama fazia colo para os contos de fadas, escritos nas horas de insônia. Os sons dos carros e suas buzinas e a cidade silenciosa diante das coisas.

Os jornais contavam histórias que alguém inventou. A sorte é tirada na sorte de quem acreditava em figas.

Alguém tentava adivinhar qual futuro ficou no meu passado. A mão única não pertence à velocidade das coisas…

Tudo se definia dentro da lógica do tempo. Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão. Quando ela me escreveu, me desenhou na porta errada e virei retrato preto e branco na paisagem.

Mariana Gouveia

Das rotinas

De ti digo sílabas e pétalas.

Leio histórias que lembra você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção.

Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor. Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a.

Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar.
Era quase nada essa distância… é preciso um certo encantamento para viver a vida. Para superar esses corredores cheios da noite.
Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?
Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?
Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas

as minhas estranhas cicatrizes

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes. Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar. Era estranho sentir as pegadas dela aqui e ali, mas a sensação de ocupação de mim era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia