Das rotinas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Tempo Medido em Flores de Ipê

Há cidades que exigem de nós a urgência da calçada, o ruído dos motores e o café tomado em pé, na pressa de um balcão de esquina. Cidades que se desenham em mapas de experimentos urbanos, onde cada ponto de ônibus é um laboratório de gentes e esperas. Também fico no ponto de ônibus observando as pessoas, talvez à cata de personagens para ocupar o tempo enquanto ele não vira a esquina. Sempre encontro uma caçadora de assunto que me faz tirar os fones de ouvido, colocados exatamente para evitar assuntos.

No meu lugar, o tempo tem outro compasso que é medido pelas folhas, sementes e flores do ipê. Depende da estação ou da vontade dele. Percebo que em alguns momentos do dia ele derrama suas sombras sobre o muro, e parece um balé a tentativa desse leve desfolhar. Em outros, ele se transforma em um tapete dourado que me dá medo de pisar e desmanchar esse rito da pétala caindo como se dançasse. Há uma engrenagem diferente dentro do quadrante do meu muro que sabe a hora de florescer ou silenciar.

Aqui, depois que fiquei sem pegar ônibus todos os dias, percebo as pessoas da minha rua. Logo após a casa da direita, há um terreno baldio onde abandonaram uma gata — e passei a alimentá-la — e, enquanto levo água e comida nas vasilhas que preparei para ela, vejo através de janelas olhos curiosos que ficam me vigiando. A mulher da casa da frente e sua filha — que parecem ser a mesma pessoa, de tão parecidas — fingem catar alguma coisa fora do portão à espera de que eu fale qualquer coisa. E daí vêm as perguntas aleatórias, como se fosse um interrogatório.

Por isso, prefiro o quintal portão adentro. A minha geografia já está gravada no peito, no cheiro do alecrim que trago nos dedos e na certeza de que os mapas e as bússolas sempre me levam ao que o universo se propõe. Por aqui, as pétalas — talvez as últimas — do ipê se deitam sob meus pés e se deixam ser leveza apenas. E o verdadeiro experimento continua sendo o de simplesmente pertencer ao silêncio.

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

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BEDA #28 – O voo: Pequenos Goles de Permanência.

Perguntar-me o que ando lendo por aqui é abrir as portas do meu próprio refúgio de papel. Neste mês, entre um rascunho e outro, minhas manhãs também foram povoadas por versos e prosas que chegaram sem pedir licença, acomodando-se na mesa do quintal ao lado das folhas que caem. Agosto está quente e seco e entre um bordado e a rotina, pausei aqui para saborear o vento debaixo do pé de ipê. Esse mês eu estive muito Scenarium. Aliás, acho que nos últimos meses eu só li os livros da Scenarium. Alguns, foram relidos e absorvidos. A Colheita é meu favorito. Casa Cheia me trouxe uma avalanche de saudades e Roteiros Imaginários – delicioso – acompanhou uma parte das minhas tardes. Mulher Proibida, Casa de Marimbondo eu já tinha lido, mas vieram parar em minhas mãos em uma dessas limpezas e fiquei por um tempo relendo. Nem Sempre à Lápis e uma ressalva para Delírios Comunista que continua atuante diante dos delírios dos últimos tempos (?) ou nada mudou mesmo?

Antes me incomodava deixar um livro à minha espera, como se me cobrasse para finalizar o que comecei. Talvez pela fome intensa de ler. Mas, me rebelei com eles. O tempo-vida é curto demais para insistirmos em páginas que não conversam com o nosso silêncio. Deixar a mão percorrer as lombadas na prateleira e escolher pelo tato, enquanto a água do chá esquenta, transforma o ato de ler em um verdadeiro pacto de presença. Fiquei acompanhando os seus passos curtos em direção à cozinha, virando as páginas de Peixoto ou Pizarnik, e pensando no quanto a literatura nos dá esse poder de desacelerar as horas para degustar o mundo em pequenos goles.

Você sabe que amo Reticências. Tenho os dois exemplares que já separei para quando setembro chegar. Achei lindo o anúncio da volta de Reticências. Adoro essas repaginadas que você faz. Ver os livros que amamos ganhando novos voos e circulando pelos olhos de outros leitores dá um sentido imenso a esse nosso agosto.

No final das contas, ler na contramão das listas de mais vendidos é a nossa forma de dar as cartas no tabuleiro do tempo. Se as prateleiras do mundo estão cheias de urgências frias, a gente escolhe a nossa xícara, abre as asas e mergulha no infinito de uma página que teima em nos salvar.

Mariana Gouveia

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BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Dia grande.

Depois da chuva a vida dança ligeira no quintal. Tem vento que balança as cortinas e leva as folhas para lá e para cá.

Tem o pássaro de todo dia, jeitinho de ave e bico molhado de chuva. Tem abril caindo direto na estação e trovão a cantar nome dentro da tarde.

Depois da chuva o vento que mora na árvore corre arteiro pelo quintal e esparrama a cores do outono aqui e ali… eu ouço canções de outros tempos e relembro a data que se repete na memória do tempo.

O dia era o dia proibido e a palavra da infância era o não.

Às vezes, a história do homem crucificado era exposta em fatos e dados reais. Meu pai tinha o poder de conduzir os “causos” e nos envolver dentro dos exemplos que ele nos queria passar e passou.

Alguns rituais eu sigo até hoje… Outros, ganharam minha própria interpretação.

A fé exposta nas palavras de amor… igual ao vento, depois da chuva… Igual ao pássaro de todo dia, com jeitinho de ave, bico molhado de chuva…

Mariana Gouveia

Das rotinas

Havia um tempo dentro da estação.

Lembrava da chuva na poça d’água e pouso do pássaro o aconchego do voo.
Havia um tempo dentro da estação e o equilíbrio vivo na fé.

O dia da força da natureza, a leveza do riso do sobrinho e saudade escolhida a dedo.
Os bibelôs intactos na estante e a solidez nos vãos do quintal.
Não existe um dia fora dele mesmo junto da imperfeição…

Mariana Gouveia

Das rotinas

 É aleatório as denominações das estações

O sol do meio-dia reascende o calor do meu lugar. Inverno é coisa que não existe no calendário daqui. É contraditório, eu sei, mas para quem conhece o lugar – ou já leu sobre – sabe que a estação aqui, é aleatório às denominações.
A ave do encantamento apareceu de novo. Cantou para além das flores do ipê. Viveu coisas de primavera nas flores e depois, foi ser voo em um céu de nuvens.

Mariana Gouveia

Das rotinas

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Trapézio

 

Estar com ela tinha a sensação plena do voo.
De repente me pediu pra cantar. Uma musiquinha de criança…
Não cantei, ela fez charme e mesmo não dedilhando canções a melodia invadiu espaço dentro da alma.
De novo a sensação do voo, água na boca. Quase turbilhões de borboletas na barriga.
E foi riso…e mergulhei sem rede. Não tive medo. Me joguei.
Sei lá. Não sei que nome dou pra essa coisa na barriga que envolve e que devora, que tal qual criança na noite do Natal a espera do pacote abrir.
Me abri. Os braços, quase alados, quase asas. Indo, vindo. O espaço era meu. Não. Melhor, o espaço era nosso.Amplo. Lá embaixo, picadeiro sem rede. Mas o amparo era nítido.
Era colo.
E assim, a magia se faz e a gente voa junto. A respiração corta e a respiração vem.

De um pequeno instante,a sensação agradável de estar ali, invadindo espaço, braço.
O palpitar do coração na melodiosa canção do amor e a plenitude de dominar o céu.

Quer saber? Até hoje  subo no estendal de roupa onde meu coração ficou preso.

Foi o primeiro delírio de um voo rasante de uma provável série de outros que virão. Aliás, acho que viverei nesse trapézio constante em alucinógenas doses de me entregar nos braços dela.
Quero andar nesse caminho de céus coloridos, com borboletas de cores variadas a voar suavemente em torno dos meus pés.
Em volta tudo lembra magia e é bom, nem é preciso fechar os olhos.
Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.
Eu queria que eu só existisse pra essas coisas e pro amor. Daquele momento de borboleta me peguei a derramar do limite das asas, uma chuva de flores.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto um domingo de abril.

Foi como se você estivesse aqui e coubesse toda nos meus braços e voasse em mim…

Mariana Gouveia
Art: Larissa Marques

Das rotinas

305 – e os dias contam minha cidade

Cuiabá vai além das palavras quando amanheço… Suas rotinas entre as ruas que atravessou… O pão, em algumas janelas – ainda – leva meu pensamento para a minha meninice. O jornaleiro que agora usa uma moto cresceu. – virou homem, o menino.
As árvores se eternizam nos quintais. Outras, perdem espaço para o novo.
Cuiabá incendeia os dias em seu calor habitual ao mesmo tempo que aconchega aos que aqui chegam. É ponto de partida e de chegada. É novo e velho junto, mostrando uma senhora que teve de se adaptar ao tempo. O moderno se aliando ao antigo…
Um precisando do outro para se encontrar. Cuiabá me viu feliz, me viu chorosa, me viu sonhar. Me acolheu em suas ruas onde a poesia caminha ao meu lado. A cidade me dá a magia dos seus amanheceres… me oferece colo em suas paisagens que se renovam a cada dia. Tudo é novo todo dia. Tudo é o que já era dentro do que posso explicar.
Em seus 305 anos, Cuiabá é esse braço aberto para te abraçar.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia