Das rotinas

Ah, setembro…

Acho que foi em setembro quando os dias ganharam contornos de asas. A folhinha do calendário soltou-se – nem dava para saber que lua era – e o céu era povoado de flores.

Sabia apenas que ainda não era primavera, apesar das flores dos ipês mostrarem o contrário e tudo doía feito osso quebrado – na alma – e confundi a canção na voz estranha da cantora favorita.

Acho que foi nesses dias em que antecedem festas. Aniversário de alguém, sei lá! Só sei que me perdi terrivelmente dentro do dias e fiquei apenas sendo vazio sem você e quando vi os corações nas paredes, quase apagados e os corredores com a solidão do seu nome onde a lua em meus dedos escreve o amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Ritual marítimo

Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz. Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar. E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso  Suzana Martins e Bob F

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

e eu nem sei se a luz madrugou ou chegou tarde

Releu as cartas que escreveu. A emoção era puro amor além da voz. Tem dias que nem precisa de carteiro para a carta ser entregue. Basta a emoção que a faz parecer menina.
O mensageiro era o vento, que em dias como hoje finge não existir. Um cheiro de flor cruza o quintal. Usa os desvios da rua de cima para atravessar os muros e virar poesia na leveza da flor. Repito a pergunta de outro tempo: seria a nuvem atravessadora de ritmos?! Era quase dança a pétala desmantelada. Tem noites que as flores perdem o sentido de jardim. Tem noites que a emoção não é invenção minha. Eu apenas vivi.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

é sem raízes, o jardim virado do avesso

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor. A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela – fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé. Depois disso digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia. A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer. A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

das impressões do dia seguintes

Encontrei um ninho no meu quintal e a vida ali, sabia voar. Primeiro chorei pela benção, pela graça da vida gerada diante dos meus olhos e quis desenhar o ninho e seus gravetos. Depois, registrei para o álbum das emoções e desejei escrever a carta para contar a história. O pé de algodão virou maternidade e tenho a vista aérea da varanda. Meu medo dos incidentes com os cães e virei vigia de ninho de ave. A delicadeza acontece nos momentos estranhos. O amor nasce entre as flores e os chumaços do algodão. A vida tem a leveza do ninho branco junto da folha seca e das folhas verdes. Descobri o sentido da árvore ali, a derramar folhas inventando estações e o chiado de dois bebês passarinhos que resolveram nascer ali, no quintal onde o rio faz curva no mar na esquina do muro.

Mariana Gouveia
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Quando o azul invadiu meu quintal,

busquei nos cantos do muro a maresia. O vento oscilava no jardim e a brisa chamava seu nome – era só fantasia, eu sei – e o eco rebatia no estuque das paredes. A cascata das flores renascendo dentro da cor me trazia a canção na voz de Elis onde o pedido era morar no azul… Foi quando eu cantei e abri meu braço de rio para alcançar o teu mar.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

O tempo mudou na previsão do dia.

Da janela, vejo que o vento não me obedece no silêncio das horas. Eleva as folhas no quintal e chama para a dança – furiosa – com os galhos todos.

Salvo as vidas, que quase sem tamanho, se engrandecem na segurança da varanda. Há terra seca em cada canto. Perigo para quem tem asas – essa sorte de voo quando o vento é passivo – mas, é voo cego nessa previsão que chega diante dos olhos. Só o som da rajada de vento para parecer canção.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Choveu e aspirei a saudade no ar.

Esqueço a nomenclatura dos dias. Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento. Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.

Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio. Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia. E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia. Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe. Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.

Mariana Gouveia
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Das rotinas

Vasculhava as lembranças de um dia aleatório

Ph: Kiss Andrea

Porque de repente, lembrou que era julho no calendário dos amantes e viu as cartas presas em um laço. Pensou em quem não mandou notícias e nem lembrou do aniversário passado.
Ouviu a canção na língua estrangeira e já era segunda-feira. Viu o cão na rua de cima. Esvaziou as gavetas e gaiolas. deixou todo sentimento livre voar.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Havia um vento para os lados do sul

Quando o vento mudou a rota já era tudo solidão por essas bandas. E também não havia rumores de nuvens e o silêncio que se seguiu rua afora gritava em cada esquina.

As artérias competiam dentro do peito no sentido amplo de caber mais amor e eu só repetia a canção.

Mariana Gouveia