Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário da Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

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Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro estações
Scenarium Livros Aretsanais

Das rotinas

A vida é uma poesia para ser vivida.

A solidão das horas veste o verbo do dia. Um homem conta na TV como abraçar uma árvore. Se emociona quando repete os gestos feitos há muito tempo.
A vida é uma poesia para ser vivida.
A sorte aparece descrita na folha. A expectativa da viagem anotada nos mapas…
No equilíbrio cronológico do dia bebe – se o néctar das flores.
Só há um único saber entre o plantio e a colheita.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Da geografia das coisas

Escrevo o roteiro da viagem dentro da poesia e coloco nome nas coisas de amor.
A canção repete em mim o gesto. O gosto de férias aproxima e a rotina ganha anotações diárias.

Faço listas, cumpro metas… Jogo fora lembranças que só aumentam a bagagem… Preparo sementes para jogar nas estradas. Refaço planos que tinha esquecido… Hoje, já posso quase tudo dos rituais. Varrer as folhas, aspirar as flores, beijar os cães – me imunizo das vontades todas. O sorvete de pistache a me contar sabores… Quase uma rusga de felicidade.
Houve mudança no tempo. A estação dá seus sinais na frieza do dia. O vento antecipa a queda da temperatura e a febre é só um presságio na ave que beija a flor.
Guardo os mapas, recrio instantes que ainda vou viver…

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas · infinitamente

Das sílabas feitas dentro do verbo amar…

Era uma vez e muitas vezes
Um homem que amava uma mulher 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher que amava um homem 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher e um homem 
Que não amavam aquele e aquela que os amava. 

Era uma vez 
Talvez uma vez apenas 
Uma mulher e um homem que se amavam. 
 Robert Desnos

Amor,

às vezes, eu preciso voltar no tempo dentro do meu amor por você. É onde nos encantamos com o que vimos para além do céu, das flores, dos bichos e nas trocas de olhares. Um sabe tanto do outro, que em muitos momentos, as palavras perdem o significado.

Em outras vezes, te nomeio guardião de mim… de tantos momentos difíceis e de sua capacidade de entender meus medos, de admirar minhas coragens, de chorar junto nas minhas dores e de ser o amigo que me ouve nos desabafos.

Comemorar seu dia é repetir gratidão ao Universo pela bênção de te ter comigo, de dividirmos juntos uma história em sílabas feitas dentro do verbo amar.

Sabe, amor, em alguns dias eu revisito os passos que me levaram até você… e o que é bom é que, dentro de tantos momentos, tenho certeza de que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo, para viver a mesma história de amor com você.

Te amo infinitamente,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a minha história

Abri as caixas todas – as de papelão, de chapéus, (que eram de meu pai) as de camisas – misturei as histórias todas. As minhas e as que me contaram.

O tempo mudou dentro da manhã. A estação desejou caber nas flores. A dimensão do voo sabia da vontade da asa.

A liberdade rabiscada nos muros. O moço da reciclagem coube no meu abraço. O céu abrigava a pipa do menino da rua de cima. Brincava de ser capitão do ar. Rodopiava em direção às nuvens enquanto a canção no rádio falava de amor. E ninguém voava. Os voos foram cancelados em intenção da dor.

A rotina ainda não se desenhou nos meus dias com exceção das aves que vagueiam por aqui e brigam com os cães pelo alimento que sobra. É quase tudo esse silêncio da alma. A vida medida em gotas e o corredor sem cor ostenta a solidão vazia no olhar das pessoas e a vontade é esse bater de asa no peito.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, e o azul a espraiar vontades 

Adivinhou a sorte de um homem tranquilo. O vento a invadir a pele e o frio inquilino entrou devagar nos quartos onde a cortina dançava. O sol a desvendar mistérios atrás das nuvens.

Limpei o sol dentro das nuvens e um carrossel era brincadeira de criança dentro de um azulejo bordado. O espelho a esconder geometricamente a figura exposta dentro da solidão.

O perfil do instante marcado na folha que balança, na flor que se abre e o azul a espraiar vontade nos dias em que o relevo marca a digital.

Havia pegadas na terra fofa e o mapa feito para as ruas do norte e o azul a espraiar vontades e o dia acabando em solidão, enquanto a noite adormece dentro da flor… e o azul…ah, azul!

Mariana Gouveia

Das rotinas

era a terapia, uma vez

Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas… é tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.

Ela se anima enquanto detalho o dedal, as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.

A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.

Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e falo das lembranças que guardo sem querer…

Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, o mar

Ph: Tom Chmbers

De noite, voava como se tivesse asas e dependurava no teto – colados em ideogramas – os sonhos.
Voava como se fosse peixe, desenhado para voar…
e assim, ainda voava como se o mar fosse céu.
Voava como se fosse o instrutor da hidroginástica a fazer passos ouvindo “Glóriaa…”
Como se fosse ave, flor, voava. Muitas vezes, durante o silêncio da madrugada.
Em outras, era o céu que voava dentro dela.
Como se tivesse asas e pudesse plainar, pousava
feito a borboleta na mão…

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

uma data é uma data

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia. Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.
A vida fica instável na palavra cantada. Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza… Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente. Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia