Das rotinas · infinitamente

uma data é uma data

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia. Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.
A vida fica instável na palavra cantada. Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza… Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente. Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia

Das rotinas

o amor tem a forma da dor

Ph: Aitor Frias & Cecília jiménez

Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma. A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.

O grito de uma ave noturna abala o silêncio… Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso

O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu. Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era um vez, a cor

Ph; Ziqian Liu

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.
Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.
Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.
E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a vez…

Ph: Katia Chausheva

Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre. A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas. Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos. Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada. O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso. Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a noite

ph: Jeanie Tomanek

É noite já. O rádio lembra o tempo passado. E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão… e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis)

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, os ninhos

o menino estranho do ônibus tinha olho de humano, quase para além dos deuses
queria defender a pátria – na camiseta a frase em outro idioma que não conseguiu traduzir – falava dos coletivos que aprendeu na escola e achava estranho ninhada não ser coletivo de ninhos – tão inocente o menino – percebeu a praça vazia de árvore

cortaram os galhos de onde pendiam os ninhos dos guachos
ficou o pássaro órfão de ninho, com os galhos no bico a procurar galho seguro – contou
reescrevi o poema enquanto na árvore nua a asa vazia de ninho

fizemos uma petição em favor das sementes que virariam árvores e as asas ganhariam ninhos para gerações futuras conhecerem o poder do voo
o menino estranho do ônibus ganhou voo quando desceu no mesmo ponto que eu
tinha olhos de deuses – quase humano – o menino que sonhava recuperar ninhos

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A intenção do silêncio no barulho das coisas

Ph: Tumblr

Depois dos dias de silêncio passou a inventar histórias… Ouvia canções em idiomas que não conhecia e nem sabia a tradução.
Era uma maneira de matar o silêncio das coisas.
A bailarina de porcelana a enfeitar a mesa do canto. O elefante de vidro fosco – sempre mudo – ao lado da vitrola antiga, encontrada em perfeito estado no brechó da amiga.

Repassava os discos de vinil como se buscasse motivos para o acontecimento das coisas.
O encanto guardado no baú da memória.

Depois dos dias de silêncio passou a escrever cartas que nunca enviaria – com exceção de uma, relatando o fim – e nunca seriam lidas.

Depois dos dias de silêncio passou a ouvir as folhas e o pouso da libélula no varal de roupas e a condenar o barulho dos cães na rua debaixo quando percebiam que o homem da reciclagem se aproximava com sua carroça e a cantoria que acordava o silêncio das coisas e depois disso tudo era barulho dentro dela.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Trevo

Contava a sorte nas asas
Viu estrelas cadentes riscar o céu.
Fez pedidos
para ilustrar a vontade de vida.
Acolheu risos em forma de fé.
Ganhou abraço quando a palavra perdida chegou.
Estendeu a mão para a mulher que conhece a sorte do dia.
Descobriu no trevo o caminho para seguir.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quem sabe amanhã você venha

De mim, o ruído estranho.
O coração que cresce. A voz que se cala, cabelo curto, que o vento agita.
Tracei os caminhos profanos e respirei liberdade.
Cometi os Sete Pecados.
Colhi o que plantei. Respirei saudade. Fiquei à espera.
Nasceram gérberas. Plantei mamão para os pássaros.
Costurei dimensões dos dias. Escrevi cartas. recebi cartas. Ganhei presentes. um riso de uma menina que partia doeu meu coração.
Por falar em coração, ele é todo cicatriz. Das esperas onde nada acontece.
O physalis deu flor, deu fruto e secou. Renovou-se nas esperas. Misturou-se nas folhas do amor agarradinho que cresce, agarra. Pinta de rosa o quintal.
Um pássaro noturno canta. É a aparição da saudade. Olho o céu. vejo a lua, as estrelas. Choro e chamo seu nome.
Quem sabe, amanhã você venha.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

o acalanto da memória.

O encantamento começa com a magia da manhã. Vasculho os instantes no quintal e a memória busca o tempo que acabou. Nada dura para sempre e nem o encantamento permanece o mesmo diante das coisas.

Havia o tempo certo para o pouso da asa e a mania de querer pousar. Toda passagem tem o exato momento para acontecer.

O fio é tênue e imprevisível e rompe quando o sentimento muda de lugar.

Cantei canções de outros tempos, podei as plantas e preservei a morada dos que moram na árvore do canto.

Refiz os espaços do jardim…Refiz os espaços dentro de mim. Hora de recomeçar.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega