Das rotinas

Era uma vez, os ninhos

o menino estranho do ônibus tinha olho de humano, quase para além dos deuses
queria defender a pátria – na camiseta a frase em outro idioma que não conseguiu traduzir – falava dos coletivos que aprendeu na escola e achava estranho ninhada não ser coletivo de ninhos – tão inocente o menino – percebeu a praça vazia de árvore

cortaram os galhos de onde pendiam os ninhos dos guachos
ficou o pássaro órfão de ninho, com os galhos no bico a procurar galho seguro – contou
reescrevi o poema enquanto na árvore nua a asa vazia de ninho

fizemos uma petição em favor das sementes que virariam árvores e as asas ganhariam ninhos para gerações futuras conhecerem o poder do voo
o menino estranho do ônibus ganhou voo quando desceu no mesmo ponto que eu
tinha olhos de deuses – quase humano – o menino que sonhava recuperar ninhos

Mariana Gouveia

5 comentários em “Era uma vez, os ninhos

      1. Ao lado da minha sacada tinha um ninho de João-de-barro. Depois que partiram, vi gerações de pássaros formarem família nele. E os alimentei pois vinham em minha janela ainda filhotes. E partiam. Até que setembro de 20 um filhote de pardal aparecia apenas para o alpiste do dia. Como não conseguia vê-lo comecei a chamá-lo de Gasparzinho. Um dia, entrei na sacada e ele estava na janela. Não fugiu. Daquele dia até dezembro de 22 mantivemos uma relação inacreditável. Conversava com ele, ele me escutava. Às vezes, do nada aparecia e pousava ao meu lado, cantava ou pedia comida. No ninho, formou família e ficou. Levou os filhotes até a janela para comer. Então, uma reforma no prédio destruiu o ninho ainda que eu tenha pedido para preservar aquele espaço, mostrei as fotos e nada. No dia seguinte, ele foi até a janela me olhou, foi até o lugar vazio e foi embora.
        Nunca mais outro pássaro voltou à minha janela.
        Precisamos urgente ensinar os meninos para quando adultos olhem os pássaros com o mesmo olhar de criança.

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      2. Que história linda e triste. Mas acredito que tudo dura o tempo exato de durar. Precisamos que os adultos também reaprendam a enxergar o lado humano da vida.

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