Das rotinas

o amor tem a forma da dor

Ph: Aitor Frias & Cecília jiménez

Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma. A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.

O grito de uma ave noturna abala o silêncio… Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso

O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu. Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia

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