Das rotinas · Divã

A intenção do silêncio no barulho das coisas

Ph: Tumblr

Depois dos dias de silêncio passou a inventar histórias… Ouvia canções em idiomas que não conhecia e nem sabia a tradução.
Era uma maneira de matar o silêncio das coisas.
A bailarina de porcelana a enfeitar a mesa do canto. O elefante de vidro fosco – sempre mudo – ao lado da vitrola antiga, encontrada em perfeito estado no brechó da amiga.

Repassava os discos de vinil como se buscasse motivos para o acontecimento das coisas.
O encanto guardado no baú da memória.

Depois dos dias de silêncio passou a escrever cartas que nunca enviaria – com exceção de uma, relatando o fim – e nunca seriam lidas.

Depois dos dias de silêncio passou a ouvir as folhas e o pouso da libélula no varal de roupas e a condenar o barulho dos cães na rua debaixo quando percebiam que o homem da reciclagem se aproximava com sua carroça e a cantoria que acordava o silêncio das coisas e depois disso tudo era barulho dentro dela.

Mariana Gouveia

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