É noite já. O rádio lembra o tempo passado. E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.
Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.
(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão… e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis)
Mariana Gouveia
