Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre. A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas. Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos. Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada. O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso. Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.
Mariana Gouveia

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