Das rotinas

era a terapia, uma vez

Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas… é tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.

Ela se anima enquanto detalho o dedal, as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.

A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.

Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e falo das lembranças que guardo sem querer…

Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia

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