Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #12 – A mutação: O Eco dos Nossos Silêncios

A tarde traz seu lusco fusco fazendo o céu ficar lilás onde o sol rompe atrás das casas vizinhas. Saí para além do quintal para alimentar a gata que foi abandonada no terreno baldio. Isso se tornou rotineiro por aqui e aproveito e cato os figos já maduros e as folhas para o chá da tarde. As suas palavras me encontraram exatamente no momento em que a água começava a ferver.

Há uma cumplicidade bonita em saber que, enquanto você resgata Okakura e folheia o Livro do Chá na prateleira, eu sinto o peso dessa mesma calmaria cruzar o meu quintal. Lembro-me de Kaori e as suas dezenas de chás baseado nesse livro. E nossos rituais às pequenas invisibilidades é, no fundo, o que liga os nossos quintais. Sempre percebo um espaço no canto do muro onde invado seu lugar e você o meu.

Gosto muito quando você fala da nonna e desse respeito pelo anoitecer e isso me fez viajar de volta para os dias em que o tempo não tinha essa pressa digital dos dias de hoje. A infusão exige exatamente o que nos falta: a coragem de esperar. Olhar para a fervura sem tentar acelerá-la é aceitar a não resistência que você buscou em Lao-tsé. A água contorna a pedra, o chá ganha cor no seu tempo, e nós encontramos abrigo no crepúsculo.

Você tem razão sobre o homem ocidental e essa necessidade febril de se exibir em telas. Ir na contramão disso, saboreando o silêncio em pequenos goles na varanda, não é apenas um ritual; é um ato de preservação. Nossos textos cumprem esse papel. Eles são os nossos bules postos ao fogo, esperando que o leitor aceite sentar-se à mesa conosco para tocar as próprias reticências.

Daqui, onde o céu também ameaça mudar de tom, seguro a minha xícara e reverencio o mesmo fluxo que nos une. Que a pressa dos outros nunca roube o nosso direito de silenciar juntas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #11 – A mutação: O Ninho que a Gente Inventa.

O seu texto me fez olhar para as paredes ao meu redor com outros olhos. Há uma poesia nômade e muito bonita nessa sua vocação para ser adotada pelos lugares, em vez de possuí-los. Nem todo mundo tem a coragem de habitar o provisório com tanta entrega. As suas palavras me levam sempre para o lugar de voyeur.

Enquanto você percorre as rachaduras dos casarões antigos como quem lê um mapa de vidas passadas, eu fico a pensar no seu “corpo-pele”. Talvez o seu verdadeiro lar não seja feito de tijolos, ferro ou portões, mas sim das palavras que você escolhe para erguer os tetos das suas histórias. Você migra como os pássaros porque sua estrutura é feita de vento e de tramas. É como ser sabedora de que o espaço é seu. Basta senti-lo.

Fiquei curiosa com o seu desfecho. Se os seus personagens são mais exigentes com as próprias casas, deve ser porque eles sabem que dependem da sua arquitetura interna para ganhar vida. Alguns dos seus personagens rondam minha vida desde que os conheci através dos livros e das histórias que você conta. Eles moram em mim, em cômodos provisórios que inventei para acolhê-los. Alexandra, por sinal, tem lugar cativo aqui, em cada canto meu, seja da alma, da vida, ou do quintal. Até mesmo na cidadezinha provinciana onde cresci.

No fim das contas, talvez a escrita seja a única coisa capaz de nos dar um teto definitivo, mesmo quando insistimos em voar. Quanto as exigências dos seus personagens, acho que, no fundo, eles aprenderam com você a arte de ocupar espaços provisórios na alma da gente. E, assim como você, decidiram ficar para o café. Ou quem sabe, para morar.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas

BEDA #8 – Casulo: O barulho que mora no silêncio

Não acontece muito o silêncio por aqui… Os pássaros ativaram o modo cantoria logo cedo. Vim caminhar no quintal e lembrei de minha mãe. Ela era silenciosa e muitas vezes só fazia o hum… Carregava o silêncio como herança; possuía uma quietude que descobri depois em alguns tios e tias. Isso a gente não escolhe, recebe dos que vieram antes de nós, como um código secreto impresso nos ossos. Tuo nonno, equilibrista de passos lentos no quintal, me lembra de como a vida exige que a gente aprenda a caminhar tateando os riscos do chão para não desabar. Ele era o mestre do silêncio. Você deve ter recebido isso como herança, imagino.

Eu cantarolo volta e meia, converso só ou com as coisas. Yoshi volta busca o ouvinte de minhas falas e abana o rabinho curto como quem não entendeu nada. Minhas coisas também são barulhentas. Ouvi um chiado peculiar de quando a borboleta sai do casulo enquanto eu cavoucava a terra para o plantio de sementes. Achei bonito tamanha suavidade e o milagre mais bonito do recolhimento. Eu também me reconheço nessas sombras que anoitecem pelos cantos do corpo, nesses dias em que a alma dobra de tamanho e a palavra precisa ser tateada no escuro da gaveta, longe dos olhos apressados.

Aqui, neste inverno cuiabano que não refresca a pele, as memórias também se misturam na fumaça seca de agosto. Não reclamo do calor. Não sou do frio, como você sabe. O que incomoda é a secura e a falta de umidade, típica desse tempo. O relógio deste lugar continua seu tique-taque indiferente, e eu guardo os meus apetrechos de jardim para seguir a rotina do dia. A farfalla – como você diz – está quase pronta para voar e viver sua semana de vida. O ciclo do casulo se encerra e a mutação nos aguarda.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #7 – Casulo: O tempo que mora nos livros

Ler seu texto foi como abrir, eu também, um baú de silêncios guardados. Enquanto a moça do tempo prevê o retorno do frio para os seus lados, por aqui o vento de agosto continua a levantar a poeira seca do quintal quando varro as folhas, exigindo essa paciência mansa que só a lentidão das estações nos ensina a ter. Há dias em que os pés se recusam a caminhar pelo mundo lá fora porque o verdadeiro movimento está acontecendo do lado de dentro, no avesso das horas.

Comovi-me com a sua lembrança de Ana Luísa Amaral. Você tem toda razão: poetas não morrem, eles apenas mudam de ilha. Deixam as páginas amarelecidas como portos seguros para os nossos próprios barcos de papel. Esse desencontro cronológico de que você fala — estar sempre adiantada ou atrasada para os compromissos — é, na verdade, a prova de que a sua escrita habita o tempo da delicadeza, e não o tique-taque rígido dos relógios comuns.

O Universo – ah, o universo – sabe o que faz ao cruzar os mapas dos iguais, dos que se acolhem-escolhem. Receber um livro sem dedicatórias, preenchido apenas com a música pura dos versos, é o excesso mais perfeito da generosidade. É o texto bastando a si mesmo. Também tenho os meus “ontens” guardados em páginas que folheio devagar, sentindo o peso do que foi e o eco do que permanece. É preciso recuar, fechar as frestas e silenciar para conseguir segurar um cuore nas mãos sem que ele se quebre. Mas devo confessar que as dedicatórias nos Lua de Papel, com sua caligrafia ainda me emociona.

Que a sua Lua de Papel continue a iluminar as noites deste inverno esquisito. Beba o seu café sem pressa. Eu sigo daqui, no meu canto, tateando minhas próprias sementes e sabendo que, na poesia, nunca estamos realmente sós ou atrasadas. Sempre nos encontramos no meio do caminho ou numa esquina qualquer.

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #5 – Casulo: Onde deságuam as palavras

O céu amanhece estranho. As nuvens se aglomeram como se fosse chover, mas a moça do tempo me tirou a esperança. O tempo seco predomina em meu lugar. Fiquei pensando em como você entende e veste a poesia. Eu, uma escrevinhadora de linhas – como você mesma disse – não sei dizer como um verso surge. Mesmo porque o verso não nasce de uma fórmula; ele é o próprio desassossego que escorre pela ponta dos dedos quando a realidade lá fora se torna quente e seca demais para ser suportada em silêncio. Tecemos nossas próprias paredes com o que nos sobra dos dias: um fiapo de luz na cozinha, o cochilo do Yoshi, o eco de um trovão que passou sem chover e a teia que a aranha tecelã coseu na grama do quintal.

Como você traça a rota de alguns dos meus poemas já sabe que eles surgem como as borboletas por aqui, rompendo o invólucro de surpresa, sangrando as asas para conseguir voar antes que a tarde caia. Sou essa criatura comum ao dobrar a esquina, é verdade, mas os meus olhos traçam rotas no inverso de mim. Escrevo para desatar os nós que a vida-lida aperta na garganta, transformando o grito represado em fresta de vento. Isso, por si só, já é poesia. E às vezes, o verso cai no colo através de uma frase, de um personagem que atravessa as ruas de cima. Uma frase dita em tom de brincadeira nas mensagens que trocamos.

Se a poesia é para ser lida em pequenos goles, que o meu texto seja igual a xícara de chá que você oferece ao longo da manhã. O instante para mim, é poético e fico aspirando sabores e tocando as ervas daqui para combinar com seus sabores por aí.

Olho para Alejandra, Emily e Cecília e nelas também encontro o mapa imaginário desse nosso andar compartilhado. Não sei se somos divinas ou profanas, mas enquanto você toma o seu chá e busca fôlego no quintal, eu sigo daqui, misturando as linhas e separando as cores, tecendo desenho com agulha – e isso também não deixa de ser poesia – oferecendo a minha voz para que os teus silêncios encontrem abrigo.

Acredito que nem eu, Rozana e Anna Clara poderíamos cravar a certeza de como surge um verso. Cada uma traçaria uma linha diferente da outra. O verso, afinal, é só isso: o outro lado do espelho onde a gente finalmente se reconhece. Mas para entender tudo isso, você já tem o mapa.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas

BEDA #4 – Casulo: O silêncio que o fio não alcança

Sua implicância com os telefones me fez sorrir diante da tela desse smartphone que, por ironia, nos conecta enquanto enfrento os mais de trinta graus que o inverno de Cuiabá insiste em manter por aqui. Compreendo perfeitamente o nonno: há invenções que parecem rasgar o tempo sagrado das coisas. O som estridente daquela campainha antiga invadindo o casarão soa quase como uma profanação perto do bater solene do carrilhão, o verdadeiro cuore da casa. Uma casa precisa de batimentos, não de sobressaltos.

Eu demorei para ter um telefone e o primeiro, segundo meu filho, era da idade da pedra. O telefone da rádio para mim, na época era o mais legal. O que trazia pedidos de músicas e notícias mundo afora. O fio que trazia a notícia do mundo, era o mesmo que falava sobre as partidas de alguém que a gente amava, era também o que aprisionava a urgência. O tintilar da ficha caindo do outro lado quando o aparelho chegava aos ouvidos tinha o som de alguém que me ouvia pelas ondas do rádio. A vida antiga tinha outra velocidade; as dores e as alegrias viajavam devagar, no lombo dos cavalos, bicicleta ou no balanço dos vagões, carimbadas por selos e envelopes. Havia um tempo justo para digerir a saudade entre a escrita e a resposta. Hoje, a pressa nos rouba o direito ao recolhimento. E há os que se incomodam quando não respondemos na hora em que recebemos a mensagem.

Acho que também fujo dos diálogos longos. Quando a tagarelice alheia ameaça o meu silêncio, eu me recolho para dentro do casulo. Dou três voltas no quintal, ajeito uma planta, observo a lentidão do Yoshi, e seus passos cada vez mais curtos. O silêncio acontecendo e sendo interrompido apenas pelo toque da mensagem e por falar em mensagem, gosto de ouvir o som digitalizado do sapinho que você escolheu para as tuas. É como se eu estivesse perto. No meu, o som é Surrender, de Laura Pausini que amo.

Desativar o som é uma maneira de comandar a vida e esperar a hora certa para a resposta. É escolher a própria órbita. Enquanto o mundo corre lá fora atrás de notificações imediatas, eu sigo aqui, blindando o meu canto e preferindo a calmaria dos papéis que esperam pelo tempo certo de serem lidos. Meu pai já dizia que desligar o mundo é o primeiro passo para conseguir ouvir o próprio coração.

Que assim seja!

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas

Das previsões rotineiras

A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar – a descobri novos horizontes – e concluí que o céu era o limite. O muro era o detalhe para aprender barreiras e superá-las.

Divago sobre o tempo e suas previsões loucas… o guarda-sorte na rotina dos dias… Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar. O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui.

O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava. A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida.

Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar. Feliz no jogo… feliz onde você quiser ser.

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Scenarium Livros Artesanais

Contei a história para menina de agora.

 O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas, a não ser de meteoros. Um avião quase atravessou a lua.

O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens – uma ave, o voo – a nuvem formando desenhos que me lembram a infância…

A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre a palavra Posso e Consigo. Usou a palavra força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente.

Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Tem noite que o dia não é para qualquer um… só para quem é guerreira.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F