Crônicas · Literatura · Outubro Literário

A Simultaneidade das Coisas Belas

Em um mundo de coisas frágeis, ler e cultivar são atos de sobrevivência. Abrir a página de um livro, migrar para dentro da história, cavar a terra depositando sementes e arrancar as ervas daninhas é esvaziar a mente da realidade, mesmo que por alguns instantes. Espalho na mesa folhas avulsas com a prosa e a poesia de Sontag enquanto o chá esfria.

Sontag se apresentou a mim pelas mãos de uma bambina, e em alguns momentos a lucidez dela se misturou às minhas loucuras. Uma força da mulher que se esparrama entre as palavras na exatidão do tempo-espaço-corpo. Quando a gente lê a primeira frase, já é arrebatado por ela. Acho que me identifiquei com a fotógrafa mais do que com qualquer outra coisa. A escrita reveladora se fez aos poucos — eu acho.

Com as folhas abertas sobre a mesa, observo a janela e percebo que a literatura e a terra compartilham a mesma alquimia da simultaneidade. Quando ela disse sobre as fotografias congelarem o momento, percebo a força dessa fala enquanto espalho as folhas dos textos para a foto. Sontag nos lembra de que a literatura é conhecimento, ainda que imperfeito, e que o ato de escrever é uma tentativa constante de traduzir o silêncio.

Quando fechamos os olhos e nos deixamos guiar pelas páginas, as geografias se confundem e os tempos se cruzam. Não importa se estamos em um café cinzento em outro continente ou sob a sombra mansa do ipê em Cuiabá; a escrita é essa porta que se abre para um diálogo sem fim, onde o autor nunca vai embora de verdade após o último gole. Ele permanece na xícara deixada pela metade, no balanço da folha que cai sozinha e nas anotações avulsas que tomamos nas frestas das manhãs.

Viver e ler são exercícios simultâneos de liberdade. Saboreio o meu chá, olho para o céu que começa a derramar suas sombras sobre o muro do quintal e dou por encerrado mais um quadrante de tempo. A engrenagem do agora pode ser dura e ruidosa, mas enquanto houver um livro que nos chame ao diálogo e a solidez da terra para nos ancorar, haverá espaço para o lúdico. Fecho as páginas e combino com o “outro” um encontro seguinte. Afinal, a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra um lugar inexistente onde o passado e o futuro aceitam dividir a mesma mesa.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

A Geometria Orgânica do Agora

Ainda hoje comentei com o moço daqui de casa sobre a evolução do tempo. Era uma conversa aleatória sobre tecnologia e lembramos de que, em algum filme, em dois mil e dois, haveria uma odisseia no espaço. Já estamos em dois mil e vinte e seis e cruzamos por pontes que nossos avós sequer ousaram desenhar. Não há carros voadores — ainda — e não sei se haverá. O espaço aéreo já tem coisa demais. Se o trânsito no chão é terrível, imagine carros voando por aí. Não quelo!

Eu sou do tempo da Barsa — as enciclopédias pesadas que traziam quase tudo em suas páginas. Quando dei por mim, meu filho já estava usando um computador. Como gosto muito de ler, queria ler todas as letrinhas que apareciam ao ligar o “monstro” que ocupava a mesa da sala quase por completo. Hoje, tudo é tão fino, que duvido que caiba tanta coisa em uma peça delicada. Sem falar na tecnologia implantada em tudo. Não há como negar a pressa ou a precisão dessas novas ferramentas que parecem adivinhar nossos padrões, nossos gostos e até os nossos silêncios. O futuro chegou sem os carros voadores das telas de cinema, mas trouxe labirintos virtuais onde nós, paradoxalmente, muitas vezes nos sentimos mais ouvidos por uma máquina do que pelos nossos iguais.

O estranhamento do agora nos assalta quando percebemos que o diálogo lúdico, a troca desarmada sobre um poema antigo ou o simples direito de não ter uma opinião pronta tornaram-se raridades ao redor de mesas reais. As pessoas andam ocupadas demais defendendo suas próprias certezas. É nesse cenário que a tecnologia se veste de espelho, nos devolvendo uma humanidade que nós mesmos estamos esquecendo de praticar no cotidiano. Diante do assombro dos algoritmos que tudo leem, eu me pergunto: onde é que guardamos a nossa essência quando as telas se apagam?

A minha resposta para esse mistério contemporâneo continua sendo meu quintal. Quando o ruído do agora ameaça saturar o pensamento, eu me levanto da cadeira e vou mexer na terra da minha horta simples. Ali, as engrenagens funcionam em outro compasso. O pé de jurubeba não tem pressa para dar frutos, e quando dá, vejo o trinca-ferro “roubar” o fruto com a agilidade de quem tem bico. A delicadeza do physalis exige uma atenção que nenhuma tela consegue simular, e os cactos me ensinam sobre a paciência de resistir aos tempos mais secos. Na terra batida do quintal, não existem respostas programadas; existe apenas o rito biológico da vida que insiste em brotar. E das ervas daninhas que tento conter.

Se o mundo lá fora se perde em anúncios de fins improváveis e conexões artificiais, eu prefiro me ancorar na delicadeza das flores miúdas que descobri que são comestíveis e medicinais, que florescem no seu próprio tempo. Talvez estejamos, sim, perdendo a capacidade de ser o que somos, engolidos pela velocidade das nossas próprias invenções. Mas, enquanto houver uma xícara de café pela metade, um punhado de ervas frescas para colher e um livro aberto no banco do quintal, haverá uma fresta de resistência. O verdadeiro experimento do humano não está na máquina que nos decifra, mas na nossa capacidade de ainda nos comover com o que é simples, lento e rouba frutos no quintal.

Mariana Gouveia

Crônicas · Ensaios Intimistas · Literatura · Outubro Literário

As páginas que nos costuram por dentro

Ilustração feita por mim com a ajuda de IA.

Fui andar no quintal descalça e cheirar o verde das folhas do alecrim. Deixei um pouco de lado as linhas e o tecido já marcado com as letras para bordar e cantarolei para o quintal. Fiz o café há pouco e a xícara ainda permanece pela metade em minhas mãos. Lembrei-me da frase que li em algum lugar sobre minhas mãos de tecedeira. Isso me levou para a bambina que costura com fitas de cetim e foi quase como abrir um portal entre os quintais. Acho até que se tornou mais um rito as conversas pelas manhãs, onde as frestas de minhas árvores se desmancham nas flores da jabuticabeira dela. É bonito pensar como esse rito organiza o nosso amanhecer na mistura dos fusos e, de certa forma, o pulsar do lado de dentro. Olho para as plantas do quintal e percebo que a vida essencial é justamente feita dessa costura invisível que traçamos com as palavras alheias. As minhas se misturando com as delas e a magia acontece.

Lembro-me de que ela me apresentou Borges e deparei-me muitas vezes com os diálogos entre ela e ele. Eu me tornava a intrusa com os olhos na conversa dos outros, de um Outro que ele escreveu. E é esse outro que nos lembra que somos feitos de retalhos — um pouco de cada história que cruzou o nosso caminho, o fragmento de um poema descoberto ao acaso na poeira de um sebo, as margens dos livros que sublinhamos ao longo da vida. Se fisicamente carregamos os traços de quem veio antes de nós, na literatura somos feitos das leituras que nos acolheram.

Ligo a playlist que tem o nome dela no repeat e volto ao trabalho com as linhas, tecendo nomes e pontos. Penso na bambina que se vê no reflexo de um espelho, múltipla de tantas pessoas, e acredito que assim é. Porque ninguém é uma unidade só. Há sempre uma mistura de seus antepassados e até mesmo das poesias que lê em silêncio, quando o seu futuro cruza o meu passado para além das esquinas e dos quintais. Com isso, nossos lugares se conectam como forma de reconhecimento através de um livro, costuras e fitas de cetim. De alguma forma, a gente se torna a garrafa que atravessa os quintais e, com isso, ele também se torna nosso cais.

O ipê aqui, que com sua sombra me acolhe. A jabuticabeira lá, que adoça os dias dela. Afinal, a luz que entra suave pelas frestas da janela, despertando o dia para o mundo partilhado, é a mesma que ilumina o invisível onde o passado e o presente escolhem se encontrar. E quando penso no Outro, lembro-me que já nos encontramos algumas vezes, dentro do que escrevemos com as meninas que fomos e, de maneira diferente, tecemos um caminho que me levou até ela.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O atravessar das páginas e a solitude.

Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.

Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.

Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.

Mariana Gouveia

Delírios Comunistas · Literatura · Lunna Guedes

O Delírio dos Homens e a Poesia que nos Salva

Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.

Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.

Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.

Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Memória que Mora no Pó.

Meu pai dizia que meu amor pelos livros começou ainda na barriga da minha mãe, e ele a “culpava” por eu gostar tanto de ler. Minha mãe lia de tudo. Desde os rótulos de latas e embalagens até as fotonovelas que chegavam à fazenda pelas mãos do carteiro, que trazia sempre doações. Daí, me tornei herdeira desse gostar. Talvez, meus livros de estimação sejam os de Manoel de Barros e Maria José Dupré. Alguns dos volumes que ganhávamos vinham desfolhados; faltavam páginas. Nosso desafio, em plena escola rural, era criar o que faltava ou acrescentar nossa visão do que mudava para além das folhas que não existiam. Aprendi cedo a inventar começos e fins.

Aqui, olhando minha estante de madeira me descubro uma guardiã de mundos inteiros. Eu preciso do peso físico das minhas memórias. Preciso saber que, se eu esticar os braços na penumbra da madrugada, cada livro artesanal — com suas lombadas costuradas à mão e fitas coloridas — estará exatamente ali, vigiado de perto pela guarda silenciosa e terna do meu Charlie Brown e do meu Yoshi de plástico.

Você limpa a poeira dos dias com o rigor do pano úmido, do chá e do vinho. Meu ritual com as prateleiras é um compasso de espera diferente. Limpar os livros, para mim, é quase como tirar as folhas secas do quintal; um jeito de abrir espaço para que o ar circule e respire entre as palavras escritas. Há cadernos e volumes aqui que guardam o cheiro do dia em que ganharam vida, e para minha surpresa vez ou outra, encontro uma folha seca entre alguma página ou algum dinheiro que foi colocado ali por acaso – justamente o preço de um sorvete para aliviar o calor.

Acho bonita a sua cumplicidade itinerante com Álvaro de Campos nos centros velhos e cafés sob jabuticabeiras. Minhas cumplicidades literárias são mais enraizadas e domésticas, criadas no calor manso das tardes em que o tempo cuiabano parece esquecer de andar. Meus livros não voam de mão em mão; eles criam territórios. Olho para eles perfilados — como tuas histórias dentro de Catarina que voltou a escrever — e vejo que eles espalham suas linhas pelas frestas da casa, ganhando marcas afetivas de xícaras de café e acolhendo pequenos guardados cotidianos. Em vários dos textos, percebo vestígios de nossas esquinas se cruzando em outras eras.

No final de cada ciclo, quando você recolhe os seus companheiros de sempre e os devolve à rigidez da ordem alfabética na gaveta do tempo, eu apenas reorganizo os meus afetos. Mudo um romance de prateleira, coloco as poesias mais perto do sol da janela e deixo que continuem conversando entre si. A poeira sempre volta. Mas os livros, esses que escolhemos para morar em nosso quintal de dentro, são a única bagunça que nos põe em ordem. Acomode os seus na sua estante, na mesa da cabeceira ao toque de sua mão. Os meus continuam por aqui, colorindo a madeira e esperando o próximo café.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Literatura

BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Em busca da manhã que se foi embora.

A manhã se foi faz tempo e, agora, uma tarde barulhenta acontece aqui fora. Trago comigo seu livro Vermelho por Dentro. Senti vontade de folhear e revisitar essa trama mais uma vez; quase a sei de cor, de tanto que a li.

Coloquei a canção para tocar e vivenciar esse momento é como ser levada pelas mãos para dentro das páginas e da cor. É como se Paris estivesse bem ali na esquina. Vou seguindo as personagens com a deliciosa sensação de um voyeur.

Gosto muito da trajetória de Eva e Deborah. Admiro a intensidade de Deborah, mas confesso que sou apaixonada por Anne. Talvez a paixão compartilhada pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida pelo enredo, com o frescor de quem lê tudo pela primeira vez.

[…]

Ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem,
sussurra em seu ouvido:
— Passa o resto da sua vida comigo?
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

[…]

Depois disso, não é a manhã que eu busco, mas sim a permanência dessa sensação de déjà vu.

Mariana Gouveia