Meu pai dizia que meu amor pelos livros começou ainda na barriga da minha mãe, e ele a “culpava” por eu gostar tanto de ler. Minha mãe lia de tudo. Desde os rótulos de latas e embalagens até as fotonovelas que chegavam à fazenda pelas mãos do carteiro, que trazia sempre doações. Daí, me tornei herdeira desse gostar. Talvez, meus livros de estimação sejam os de Manoel de Barros e Maria José Dupré. Alguns dos volumes que ganhávamos vinham desfolhados; faltavam páginas. Nosso desafio, em plena escola rural, era criar o que faltava ou acrescentar nossa visão do que mudava para além das folhas que não existiam. Aprendi cedo a inventar começos e fins.
Aqui, olhando minha estante de madeira me descubro uma guardiã de mundos inteiros. Eu preciso do peso físico das minhas memórias. Preciso saber que, se eu esticar os braços na penumbra da madrugada, cada livro artesanal — com suas lombadas costuradas à mão e fitas coloridas — estará exatamente ali, vigiado de perto pela guarda silenciosa e terna do meu Charlie Brown e do meu Yoshi de plástico.
Você limpa a poeira dos dias com o rigor do pano úmido, do chá e do vinho. Meu ritual com as prateleiras é um compasso de espera diferente. Limpar os livros, para mim, é quase como tirar as folhas secas do quintal; um jeito de abrir espaço para que o ar circule e respire entre as palavras escritas. Há cadernos e volumes aqui que guardam o cheiro do dia em que ganharam vida, e para minha surpresa vez ou outra, encontro uma folha seca entre alguma página ou algum dinheiro que foi colocado ali por acaso – justamente o preço de um sorvete para aliviar o calor.
Acho bonita a sua cumplicidade itinerante com Álvaro de Campos nos centros velhos e cafés sob jabuticabeiras. Minhas cumplicidades literárias são mais enraizadas e domésticas, criadas no calor manso das tardes em que o tempo cuiabano parece esquecer de andar. Meus livros não voam de mão em mão; eles criam territórios. Olho para eles perfilados — como tuas histórias dentro de Catarina que voltou a escrever — e vejo que eles espalham suas linhas pelas frestas da casa, ganhando marcas afetivas de xícaras de café e acolhendo pequenos guardados cotidianos. Em vários dos textos, percebo vestígios de nossas esquinas se cruzando em outras eras.
No final de cada ciclo, quando você recolhe os seus companheiros de sempre e os devolve à rigidez da ordem alfabética na gaveta do tempo, eu apenas reorganizo os meus afetos. Mudo um romance de prateleira, coloco as poesias mais perto do sol da janela e deixo que continuem conversando entre si. A poeira sempre volta. Mas os livros, esses que escolhemos para morar em nosso quintal de dentro, são a única bagunça que nos põe em ordem. Acomode os seus na sua estante, na mesa da cabeceira ao toque de sua mão. Os meus continuam por aqui, colorindo a madeira e esperando o próximo café.
Mariana Gouveia
