Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.
Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.
Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.
Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.
Mariana Gouveia
