Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

A Arqueologia dos Afetos e a Rua Antiga

Há um magnetismo silencioso nos lugares que guardam o rastro do tempo. Caminhar entre as bancas de uma feira de rua ou deslizar os dedos pelas lombadas gastas nos livros de um sebo é um exercício de pura arqueologia afetiva. Não busco ali o rigor das novidades ou o brilho intocado das vitrines; busco o assombro do que já foi vivido por outros. Um livro usado nunca carrega apenas a história que o autor escreveu; ele guarda o peso das mãos que o folhearam, a fresta de sol da janela onde foi lido e, às vezes, pequenos segredos esquecidos entre suas páginas — uma anotação na margem, uma pétala seca ou uma marca antiga de café.

Descobri dias atrás o Raro Ruído e foi como achar um tesouro. Adentrar aquela porta é como caminhar pela poesia pura. Os livros, gibis e vinis trazem a palavra afeto para dentro do peito. A literatura sempre encontra um jeito de ser o território do encontro. Por acaso, me deparei com uma porta que parecia a entrada para outro mundo, e na realidade foi mesmo. Um pequeno santuários de papel antigo, com mesas enfileiras entre as prateleiras, o cheiro de café de frutas trazendo memórias, pessoas a ganhar encantos folheando páginas e principalmente, jovens, ávidos pelo antigo, pela leitura. O olhar escapa do livro e esbarra nas figuras que povoam o cenário. O imaginário, esse tecelão obstinado, imediatamente começa a tecer suas teias sobre as criaturas que cruzam o nosso quadrante: o vendedor que oferece café, sorvete artesanal, vinho ou água com sua voz de herança; a mulher que segura um volume antigo contra o peito como se protegesse um tesouro; o tempo que parece fazer uma pausa exata entre uma esquina e outra.

Essas personagens que cruzam os nossos olhos nas feiras e sebos são como figuras de um romance que ainda não escrevemos. Há uma beleza peculiar em degustá-las assim, em pequenos goles, sem a pressa de desvendá-las por inteiro. Afinal, a proximidade real muitas vezes desfaz a magia do mistério; preferível é deixar que permaneçam suspensas na nossa ficção de fim de tarde. Ficamos livres para rir dos nossos próprios encantamentos quando a luz muda de tom e a realidade transforma as nossas certezas em fumaça.

Não comprei muita coisa, mas ao recolher meus achados a criança que fui renasce com brilho nos olhos. E como achei a barca do tesouro, devo voltar mais vezes para minerar os diamantes escondidos. Fiquei pensando em como os sebos e as feiras são extensões da própria terra. Ambos guardam sementes de histórias que esperam o momento certo para brotar. Abro o livro novo que trouxe da rua, sinto o perfume do papel antigo misturado ao vento morno que entra pela janela e deixo que o imaginário continue a tecer, em silêncio, os contornos do dia de amanhã.

Mariana Gouveia

Nota de Rodapé: Para quem tiver interesse, Raro Ruído tem uma loja online e o espaço físico oferece a gentileza no atendimento nesse endereço: Avenida Edgar Vieira, 278 – Boa esperança (abra com o maps), Cuiabá, Brazil 78045-390


Além de Livros, há café, música, vinho, LPs, sorvete artesanal e muito mais!
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