Olho para o cursor piscando no canto esquerdo da tela branca e não vejo ali uma ameaça ou um vazio intransponível. Ao contrário do que dita a pressa dos dias, esse pequeno traço de luz que insiste em pulsar ritmadamente é um convite ao descanso. Aprendi com a terra que o silêncio que precede a palavra não é escassez; é tempo de pouso. Para que as ideias possam brotar com força na nova estação, a matéria de que somos feitas precisa, vez ou outra, recolher suas asas e aceitar a xícara vazia. O chá acabou, e esse momento serve para uma caminhada no quintal; enquanto espero a água ferver, cato as ervas e aspiro o ar.
Compreendo bem a sensação desse cansaço que não alcança os músculos, mas que desacelera o sentido da alma após um grande transbordamento. Escrever é um ato que consome as nossas sentimentalidades mais secretas — aquelas que, muitas vezes, nascem e morrem no papel como cartas-não-enviadas, escritas apenas para aliviar o peso do peito. Quando a última página de um ciclo vira, é preciso ter a coragem de não fazer nada. É preciso sair ao quintal sem a obrigação da metáfora, apenas para presenciar o inédito de um dia comum: o Yoshi mudando de posição na cadeira, o Chiquinho voando baixo e o sabiá laranjeira na bacia, em seu banho diário aqui.
Não há bloqueio no fluxo da vida, há apenas a necessidade física de buscar novos goles de mundo além do muro. Ninguém colhe frutos o ano inteiro sem permitir que a árvore enfrente o seu próprio inverno. Minha pulsação criativa se alimenta desse compasso de espera, da água que ferve para o café ficar pronto e do vento morno que entra pelas frestas limpando os resquícios da poeira de agosto.
Quando me sento novamente diante da folha em branco, não busco o espetacular das grandes multidões. Busco as pequenas partículas de ontem que ficaram presas na memória da madeira. O cursor continua a piscar, paciente, imitando o bater de um coração que sabe exatamente quando é hora de silenciar e quando é hora de transbordar. Quase em 3D, a foto que chega por mensagem mostra o bolo de paçoquinha. Escrevo meu desejo de estar em outro quintal e apago. A escrita, afinal, sempre encontra o seu próprio tempo de romper o chão.
Mariana Gouveia
