Bambina mia,
Aqui no meu lugar o tempo também se gasta entre um afazer e outro, mas a falta de paz que a ansiedade promove costuma ser varrida junto com as folhas secas que o inverno deixa cair no chão. Enquanto você caminha pelas ruas barulhentas do seu lugar tropeçando em frases de jornal, eu empunho a vassoura e organizo o meu microcosmo, sabendo que, em algum ponto invisível dessa nossa órbita torta, os nossos pensamentos se cruzam exatamente na mesma esquina.
Aqui, esfriou de repente, eu diria, para a confirmação pontual da moça do tempo. Será que é assim que o inverno se despede? Depois de dias ultrapassando os 40 graus, o alerta de frio me faz buscar um casaco enquanto te escrevo. Acho graça quando você diz que vivo no passado pelo tal fuso horário. Talvez as frestas do meu relógio corram mesmo um compasso atrás, mas é esse atraso manso que me permite acolher os teus ontens com o frescor de quem ainda espera o sol nascer. Nossas conversas, sejam feitas de risadas largas ou de silêncios compridos, são como os desenhos de graveto que você fazia na margem do lago: linhas efêmeras na terra que a água ou o vento apagam, mas que a escrita fixa para sempre na memória do papel. Somos, de fato, planetas vizinhos atraídos por uma gravidade muito própria, imunes aos eclipses do cotidiano.
O inverno que agora se despede definitivamente deixa seus últimos vestígios na poeira fina que limpei das prateleiras nos dias passados. Ele vai embora sabendo que a terra aqui já acordou, batizada pela bendita chuva que lavou a copa das árvores e preparou os galhos para o primeiro broto verde. Se a ansiedade aperta o peito aí no meio do concreto, daqui eu lhe devolvo o conselho: mude o foco do olhar, espie o sabiá que assalta as jabuticabeiras e lembre-se de que o passado que você enxerga em mim é apenas o modo mais bonito que o tempo encontrou de nos manter presentes.
Abro a janela e sigo acompanhando a dança das folhas com o vento. O frio faz com que Yoshi se encolha ainda mais no travesseiro em sua cadeira. Observo Chiquinho pairar no ar perto do seu bebedouro. Acho lindo quando ele dobra as perninhas e gravita em busca de sua bebida favorita. O alinhamento está feito, a gravidade está dita e a escrita cumpre a sua promessa de nos salvar dos desacertos.
Bacio, bambina, o dia aqui já começou, um tantinho depois do seu. Logo te darei um buongiorno, amore no seu futuro.
Mariana Gouveia
Nota de rodapé: a sua missiva que ocasionou essa resposta foi uma das mais lindas que já recebi. Só para seu conhecimento .
