Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

Bambina mia,

enquanto você busca os contornos do crepúsculo entre as silhuetas verticais, eu me sento aqui no meu lugar para assistir ao ensaio diário que o céu faz antes de recolher suas malas. Olho para o alto e percebo que, embora a distância nos separe, partilhamos do mesmo relógio de frestas. Há uma urgência mansa no modo como o dia se despede. Mas, antes disso, eis que a imagem que sempre quis fotografar antecede aos meus olhos. A lua ((você) toda cheia de pompa tendo por companhia um avião. Lembrei de Calcanhoto e cantarolei baixinho aqui. Para mim, foi minha hora de ouro.

Seus olhos buscam a poesia nas esquinas paulistanas; os meus campeiam a luz que muda de tom além da rua de cima. A hora de ouro aqui não pede licença. Ela invade o quadrante do meu muro, espalhando pinceladas vivas de um calor que começa a ceder, transformando a poeira dourada do chão em uma moldura de começos e fins. Minha rua fica dourada quando o dia se finda.

Sabe, bambina, olhar para esse sol que desce lento, tocando as copas secas e as curvas dos morros distantes, me devolve imediatamente àquela menina que conversava com as coisas do mato na colina da cruz. A natureza opera sem pressa. Ela sabe a hora exata de adormecer, e deitar os olhos sobre esse horizonte limpo é um jeito bonito de encontrar abrigo.

De repente, o céu incendeia sobre as nossas cabeças. As telhas absorvem o último suspiro do dia, e o vermelho-fogo toma conta do espaço, lembrando as velhas calhas e os telhados que desbravávamos na infância. Facilitar o acesso ao desejo é também permitir que os olhos alcancem esse incêndio manso que limpa os contornos do mundo. A parabólica me entende quando o gesto é pura quietude.

Depois do fogo, vem a calmaria das cores que parecem inventadas. O horizonte se veste de lilás e rosa, uma delicadeza que contrasta com o calor bruteza da tarde. Um único galho se curva diante dessa pintura invisível, como quem agradece pela passagem do tempo. A vida ensaia o seu repouso no sutil. A solidão da tarde, às vezes, tem uma beleza sem tamanho.

A noite finalmente reivindica o seu pouso aqui no meu quintal. Os seres alados se enfileiram nos fios condutores, guardando o silêncio que precede as estrelas, enquanto a lua espia as pombas no fio. Outra hora do ouro minha que esperei acontecer. A poesia, acontece antes mesmo que eu perceba a cena. Descobri que a hora de ouro pode ser qualquer momento que a leveza nos abrace.

Mariana Gouveia

Um comentário em “Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

  1. Amiga…. Muito obrigada por deixar meus dias mais feliz. Minha rotina é deliciosa … acordo lendo Catarina e a tarde o outro lado… não tinha o hábito de ler e agora faz parte da minha rotina. Não parem… adoro ler vcs

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