Minha paixão por horizontes também começou na infância, vivida com os pés descalços na fazenda. Meu território de desbravamento misturava os galhos firmes das árvores e as telhas; mas vim me aventurar nelas apenas aqui, em Cuiabá. Lá na fazenda, a casa era forrada com palhas de babaçu, e os morros da colina da cruz me davam um horizonte inteiro para espiar. Os olhos campeavam onde o gado estava, se o carteiro já vinha vindo nos dias de quinta com sua bicicleta amarela e, se eu fosse um pouquinho mais para a direita, dava para ver o meu pai na lida da roça. Já aqui no meu lugar, eu subia para alcançar o infinito do meu próprio quintal. Minhas fugas planejadas eram para ver o sol se escondendo ou nascendo, trazendo as pinceladas do dia antes de chegarem ao quadrante do meu muro.
Crescer com o olhar solto no campo ensina que a liberdade é feita tanto de voo quanto de frestas. A janela sempre foi uma moldura para o tempo. Hoje, quando o primeiro sopro de vento morno bate no vidro anunciando que o clima aqui no meu lugar está mudando de tom, sou transportada para aquelas tardes em que eu listava o mundo além da rua de cima. Eu também tinha meus livros e cadernos guardados como tesouros, e lia nas alturas, dividindo os galhos e os telhados com o vento, sabendo que a natureza ao redor compreendia cada verso silencioso.
Acho bonita a sabedoria dos adultos que facilitam os caminhos da nossa audácia em vez de podá-la. Na minha infância, a cumplicidade vinha do silêncio dos mais velhos, que sabiam exatamente em qual copa ou cumeeira eu estava escondida, mas fingiam procurar-me apenas para manter vivo o mistério da minha própria fuga. Eles entendiam que o desejo de descobrir o mundo nasce desse espaço sagrado onde ninguém nos alcança. E quando o dia findava, o mistério da volta também se cumpria em silêncio: eu descia com os joelhos ralados, as mãos sujas de seiva e a alma lavada de céu. A bússola dos meus pais era meu irmão mais velho, que me seguia de longe, com um capim no canto da boca, como se estivesse entediado — e na maioria das vezes estava mesmo —, porque preferia a brincadeira dos meninos simulando treinar os cavalos mansos a “vigiar a irmã do meio que gostava de conversar com as coisas do mato”.
Agora, na quietude da casa, abro as frestas da janela para deixar o vento da nova estação entrar. Não sou mais a menina que se escondia lá no alto, mas sigo tramando novos começos a cada página em branco. Escrever, afinal, é a nossa forma mais bonita de continuar desbravando os cantos do tempo. Acho que eu espiaria o mar e os navios também, se morasse perto dele, mas daqui, eu sigo acompanhando o balanço das asas e o sopro morno que agita as folhas do meu próprio chão.
Mariana Gouveia
