Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

O Regente da Madrugada e o Silêncio da Escrita

Madrugar, para quem vive com os pés no quintal, nunca é um ato de solidão. Quando os olhos se abrem antes que o sol decida rasgar o horizonte do meu lugar, a casa ainda guarda o frescor que a noite estendeu sobre as telhas após a tempestade passada. Não preciso de despertadores barulhentos; há um relógio invisível no peito que me empurra para a cozinha na hora em que o mundo silencia. Enquanto a água esquenta e o aroma do café toma o ar, as frestas da madrugada se tornam o meu cenário mais bonito para ler e existir.

Dizem que nas cidades grandes os pássaros migram seus cantos para o meio da noite, disputando espaço com a poluição sonora dos homens. Aqui, a sinfonia segue a partitura exata da terra. Antes mesmo que o primeiro raio de sol doure as folhas das árvores, os primeiros acordes começam entre os galhos limpos. Não há um regente único na minha madrugada; há um coro inteiro de seres alados que reivindicam o dia. Ler a poesia dos outros sob esse teto de cantos é como costurar duas linguagens: a palavra impressa no papel e a voz livre que ecoa do quintal acordado.

Minhas leituras de amanhecer não escolheram meses cruéis. Elas se acomodam no tato, na busca cega pelas lombadas da estante de madeira, onde cada volume parece esperar sua vez de respirar. Folhear as páginas enquanto o sabiá laranjeira e outros visitantes ensaiam os primeiros voos é um hábito que me ancora na realidade. O livro na mão esquerda e a xícara quente na direita formam o meu ritual de permanência. Enquanto a luz vai mudando de cor e a famosa hora de ouro se aproxima, percebo que os pássaros e as palavras fazem exatamente a mesma coisa: ambos procuram frestas para espalhar suas sementes.

Quando o dia finalmente desperta por completo, a escrita já ocupou o seu território. Os rituais da madrugada se dissolvem nos afazeres cotidianos, mas o eco daquela primeira cantoria permanece guardado entre as linhas. Deixo que os sabiás governem as sombras da noite nos outros edifícios. No meu canto, eu amanheço junto com as asas.

Mariana Gouveia

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