Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

O Fermento do Tempo e as Chuvas do Caju.

Há uma alquimia muito secreta no modo como o passado se transforma em alimento dentro da gente. Quando ouço histórias de cozinhas, com cheiro de trigo chovendo em tigelas de louça e pães assados no calor do verão, sou imediatamente transportada para o meu próprio templo de começos. Na minha memória de infância, o frescor não vinha da farinha amassada pelas mãos dos antigos, mas do cheiro de terra molhada que subia do chão logo após a primeira chuva do cadju. Era ali que o ano de fato recomeçava. As estações se refaziam e o forno ganhava utilidade. Mas os pães de outrora aconteciam pelas mãos de minha mãe e da minha bá. Pães feitos no forno a lenha, com a massa de puba que fazia a nossa festa.

Crescer com os pés na terra me ensinou que não precisamos de receitas rígidas para entender os ciclos da vida. A natureza, assim como as cozinhas de família, opera por intuição. Olho para o meu quintal hoje e percebo que escrever é um ato muito parecido com o de assar um pão: misturamos um punhado de frestas de sol, duas colheres de saudades mansas, o pulsar do relógio na parede da cozinha que guardamos no peito e deixamos a massa descansar na penumbra da gaveta até que ela dobre de tamanho. O tempo é o fermento invisível da nossa história.

Quando cresci, o pão de puba ficou na memória. Outros pães vieram fazer parte da minha vida, mas ver a Lunna preparar a massa e o cheiro invadir um edifício inteiro em São Paulo me mostrou que a poesia acontecia em 3d. Aquela imagem nunca mais saiu das minhas lembranças. Dizem que as estações aprisionam as melhores recordações, mas aqui no calor do meu lugar, o recomeço tem a ver com a espera. Espera pelas nuvens que desenham promessas no céu, pelo amadurecimento dos frutos no pé, pela coragem de virar a página e inaugurar uma nova estação. Quando resgatamos os gestos daqueles que vieram antes de nós — seja sovando a massa com sentimento ou tecendo palavras em uma tela em branco —, nós reabrimos as janelas da alma. É um sopro de ar puro que afasta a poeira dos dias antigos.

Ao final da tarde, enquanto coloco o café para passar e espio os pássaros disputando os galhos secos lá fora, sinto que o mistério está renovado. O passado e o presente se misturam na fumaça quente que sobe da xícara. Não há solidão possível para quem traz o quintal povoado de heranças. A terra desperta, a memória ferve e, em cada linha que escrevo, saboreio a certeza de que a vida sempre encontra um jeito bonito de recomeçar.

Aqui, a expectativa finalmente se fez presença: eis que desceu a bendita chuva do cadju — com a pronúncia assim mesmo, igualzinha à escrita pelo linguajar cuiabano. A terra, que antes parecia fingir que nada recebia, agora bebeu com vontade a água do céu, e o cheiro de poeira lavada trouxe o aviso de que a doçura dos frutos novos finalmente vai chegar no tempo certo. Alguém assa pão na redondeza. E as minhas memórias são imediatamente ativadas pelo olfato, misturadas ao perfume da terra molhada. Deixo que o pão asse na cozinha dos outros. No meu canto, eu cultivo as lembranças, a saudade e o frescor desse chão renascido.

Mariana Gouveia

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