Ainda hoje comentei com o moço daqui de casa sobre a evolução do tempo. Era uma conversa aleatória sobre tecnologia e lembramos de que, em algum filme, em dois mil e dois, haveria uma odisseia no espaço. Já estamos em dois mil e vinte e seis e cruzamos por pontes que nossos avós sequer ousaram desenhar. Não há carros voadores — ainda — e não sei se haverá. O espaço aéreo já é tem coisa demais. Se o trânsito no chão é terrível, imagine carros voando por aí. Não quelo!
Eu sou do tempo da Barsa — as enciclopédias pesadas que traziam quase tudo em suas páginas. Quando dei por mim, meu filho já estava usando um computador. Como gosto muito de ler, queria ler todas as letrinhas que apareciam ao ligar o “monstro” que ocupava a mesa da sala quase por completo. Hoje, tudo é tão fino, que duvido que caiba tanta coisa em uma peça delicada. Sem falar na tecnologia implantada em tudo. Não há como negar a pressa ou a precisão dessas novas ferramentas que parecem adivinhar nossos padrões, nossos gostos e até os nossos silêncios. O futuro chegou sem os carros voadores das telas de cinema, mas trouxe labirintos virtuais onde nós, paradoxalmente, muitas vezes nos sentimos mais ouvidos por uma máquina do que pelos nossos iguais.
O estranhamento do agora nos assalta quando percebemos que o diálogo lúdico, a troca desarmada sobre um poema antigo ou o simples direito de não ter uma opinião pronta tornaram-se raridades ao redor de mesas reais. As pessoas andam ocupadas demais defendendo suas próprias certezas. É nesse cenário que a tecnologia se veste de espelho, nos devolvendo uma humanidade que nós mesmos estamos esquecendo de praticar no cotidiano. Diante do assombro dos algoritmos que tudo leem, eu me pergunto: onde é que guardamos a nossa essência quando as telas se apagam?
A minha resposta para esse mistério contemporâneo continua sendo meu quintal. Quando o ruído do agora ameaça saturar o pensamento, eu me levanto da cadeira e vou mexer na terra da minha horta simples. Ali, as engrenagens funcionam em outro compasso. O pé de jurubeba não tem pressa para dar frutos, e quando dá, vejo o trinca-ferro “roubar” o fruto com a agilidade de quem tem bico. A delicadeza do physalis exige uma atenção que nenhuma tela consegue simular, e os cactos me ensinam sobre a paciência de resistir aos tempos mais secos. Na terra batida do quintal, não existem respostas programadas; existe apenas o rito biológico da vida que insiste em brotar. E das ervas daninhas que tento conter.
Se o mundo lá fora se perde em anúncios de fins improváveis e conexões artificiais, eu prefiro me ancorar na delicadeza das flores miúdas que descobri que são comestíveis e medicinais, que florescem no seu próprio tempo. Talvez estejamos, sim, perdendo a capacidade de ser o que somos, engolidos pela velocidade das nossas próprias invenções. Mas, enquanto houver uma xícara de café pela metade, um punhado de ervas frescas para colher e um livro aberto no banco do quintal, haverá uma fresta de resistência. O verdadeiro experimento do humano não está na máquina que nos decifra, mas na nossa capacidade de ainda nos comover com o que é simples, lento e rouba frutos no quintal.
Mariana Gouveia
