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O Guardião do Espelho Invisível

Há um homem que caminha comigo em alguns momentos, embora os meus olhos nem sempre consigam capturar a sua silhueta entre as folhagens do quintal. Ele usa as minhas memórias, conhece o peso exato da minha pressa e sabe, antes de mim, qual folha de erva vou colher para o próximo chá. No espelho do tempo, esse “outro” que Borges tão bem descreveu é o guardião silencioso de todas as versões que deixamos pelo caminho.

Em um outro tempo, foi meu irmão me guiando colinas afora, pela floresta densa até a casa da bá, com medo de qualquer folha que se mexesse. Depois, mais tarde, com a bola de capotão na mão, vigiava meus passos até o riacho. Olho espichado, capim no canto da boca, com um olho quase fechando na espreita dos meus passos. Quando via algo estranho ou incomum, me gritava num “ei” sonoro, apontava o dedo e o bico, e ria com minha surpresa. Anos depois, era eu quem o avisava de qualquer coisa incomum. Acontecia algo bom, era para ele o primeiro para quem eu mandava a mensagem… Às vezes, ainda me pego procurando seu nome na lista de contatos para ligar.

Esta semana eu o senti no quintal. Vi as sementes que ele me deu darem flores… Lembrei-me das vezes em que ele preenchia o silêncio apenas com o olho torto, tentando fazer a piada engraçada de que ninguém ria. Olho para o quintal, para a rosa do deserto que resiste ao sol cuiabano, e percebo que o “outro” que me habita é feito justamente desse caminho que trilhei colina acima, riacho abaixo, paiol cheio de milho e ele lá, evitando que eu me machucasse com qualquer coisa. Hoje, ele é apenas essa beleza que o quintal inventa em cada folha ou flor de sementes que ele me enviou. É a menina que andava de cavalo na lida com o gado conversando com a mulher que hoje borda tecidos e alimenta a gata abandonada do terreno baldio duas casas acima. Não somos uma unidade estática; somos um fluxo constante de começos, princípios e saudades.

Em algumas manhãs ou noites, o filho dele me chama e me fala quase as mesmas coisas que ele dizia. Duas ou três frases, como se dissesse: estou aqui, no lugar do meu pai, a cuidar para que esteja sempre segura. E é assim que me sinto.

Mariana Gouveia

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