Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Avesso do Papel Solto

O papel não aceita amarras quando o tempo decide ventar.
Quando o caderno chega ao fim, o pensamento transborda para as margens,
feito a água que ferve e teima em escapar do contorno da xícara.
Se a última folha é um susto,
a página avulsa é um convite ao desvio.
Uma folha dobrada em um canto: um aviso.

Um aviso de um fim,
Ou recomeço?
Recolho o silêncio do dia como quem observa os vincos das flores que nasceram.
Lá fora, o barulho dos pássaros demarca o território do agora;
aqui, a vida se faz em pedaços soltos,
sob a sombra rústica do pé de jurubeba e a delicadeza escondida da physalis.
Folhas que não pedem a rigidez da costura,
mas o mistério do sopro.

Acho bonito o segredo das gavetas que guardam versos amarrados com barbante.
Dickinson sabia que a eternidade se risca no escuro de um quarto,
longe dos olhos apressados que medem o mundo pela utilidade das coisas.
Escrever em folhas soltas é estender uma carta ao invisível,
sabendo que a literatura, antes de ser livro,
é o rastro de uma pena que insistiu em não se calar.

O tempo dobra-se sobre si mesmo.
Feito o papel que vira tsuru, navio ou abre-e-fechas na infância,
os nossos dias também se moldam aos vincos da memória.
Uma dobra nos devolve à textura resiliente de uma rosa do deserto;
outra nos joga para a mulher que borda o avesso do presente com ervas frescas nas mãos.
Não há erro na folha que cai sozinha quando a gente passa;
há apenas a precisão exata de um instante que aceitou se desprender.

Deixo que minhas palavras fiquem assim, avulsas.
Sem o peso da capa, sem a linha preta que prende a lombada.
Apenas o papel aberto, oferecido ao vento,
esperando que alguém recolha o que flutua
e encontre, na dobra do texto,
a poesia que faz a vida suspirar.

Mariana Gouveia

Deixe um comentário