Há dias em que a literatura se parece com um quarto fechado, uma escrivaninha pesada e uma luminária que insiste em focar apenas o branco do papel. É o labirinto do escritor, aquele território onde nos cercamos de palavras para tentar dar nome ao que pulsa do lado de dentro. Quase posso ver as etiquetas beckettianas coladas nas coisas ao meu redor: a xícara de café, a agulha de metal, o novelo de linha, a janela. Identidades estáticas que tentam segurar o mundo no lugar enquanto a mente insiste em vagar por confins distantes. Mas eu não gosto desse lugar fechado. Então, abro a janela para o quintal e exploro a quietude que cola em mim.
Dizem que o exercício de escrever é uma repetição insana, buscando uma perfeição que a própria condição humana teima em nos negar. Corremos o risco constante de nos tornarmos prisioneiros das nossas próprias histórias, vigiados de perto pelos fantasmas da infância e pelos personagens que deixamos pelo caminho. O corpo, às vezes, cansa desse confinamento do pensamento. Daí, trava. Vira pelo avesso.
Mas é justamente aí que o milagre do avesso acontece. Quando o quarto ameaça se fechar por completo, a literatura deixa de ser cela e vira fresta. Basta um sopro de vento vindo da rua de cima para que as etiquetas se soltem. Olho para o lado e percebo que, embora a rotina da escrita exija a imobilidade da cadeira, o meu quintal continua a correr em direções invisíveis. As sementes do ipê não conhecem clausura; elas simplesmente caem e rompem a linha reta do asfalto. São levadas pelo vento e pelos pássaros. A leveza faz com que elas flutuem em direção a um chão que ofereça colo para germinarem.
Não sei se somos autores, leitores ou personagens criados por um idioma misterioso que mal conseguimos decifrar. No banco de praça de Borges, o tempo desfaz as paredes e o teto. Pouco importa o tamanho do cômodo se a escrita for a garrafa jogada ao mar que nos permite cruzar o horizonte. Se a Terra, vista de longe, não passa de uma partícula de poeira, que o nosso laboratório diário seja o espaço onde essa poeira ganha a dignidade de uma história bonita. Termino o dia virando a página, certa de que o verdadeiro scriptorium nunca teve portas trancadas.
Mariana Gouveia
