Há quem meça a vida pela exatidão dos compromissos, pelas páginas viradas com pressa ou pelo som mecânico dos alarmes que despertam as cidades. Eu prefiro as medições analógicas, aquelas que acontecem no exato milagre em que o dia decide se inaugurar, ainda sem nome, na fresta da janela. Para quem tem alma de bordar tecidos, o tempo não corre em linha reta; ele se esparrama manso, feito o café que começa a perfumar o ar da cozinha.
A madrugada tem um idioma próprio que só os madrugadores conseguem traduzir. É o momento em que o silêncio do quintal é tão denso que quase se pode ouvir o balé das sementes de ipê tocando o chão. Os pássaros começam a acordar o dia. Gosto desse rito de inaugurar a manhã sem nenhuma pressa, com os pés descalços tocando a terra que ainda guarda o frescor da noite. Caminhar até o fogão, ferver a água e segurar a xícara de café é o meu princípio de tudo. Não um começo brusco, mas um alinhavo sutil entre o sonho e a vigília. Depois, caminhar com Yoshi pelo quarteirão da rua de cima, vendo as nuvens se moldando ao som do vento.
Dizem que cozinhar nas primeiras horas é convocar quem veio antes de nós. Sinto isso quando mexo o café ou quando o aroma do alecrim me traz, de repente, a lembrança do chá para curar alguma dor que minha mãe ou minha bá faziam. Há uma linhagem de mulheres que habita o avesso dos meus gestos cotidianos. Sinto isso quando a própria luz da manhã se aconchega no muro, cobrando de mim apenas a coragem de simplesmente pertencer ao instante.
E assim como há uma reverência na hora primeira, há um recolhimento sagrado quando a tarde cai e as sombras começam a disputar espaço com as plantas do quintal. É quando o ciclo se fecha, a agulha de metal descansa entre as linhas e a gente percebe que o verdadeiro experimento não foi cruzar grandes horizontes, mas ter sobrevivido com delicadeza a mais um quadrante de tempo. O dia termina como começou: no compasso do silêncio, portão adentro, onde o presente aceita dividir a mesma mesa com o passado e o futuro, e os pássaros se recolhem procurando seus ninhos.
Mariana Gouveia

lindissimo seu post, minha cara. Me acertou em cheio com as primeiras horas, um dos meus remetentes. Adoro misturar ingredientes enquanto a manhã vai ensaiando os seus tons. Hoje eu acordei pouco depois das cinco e vi as primeiras cores, aromas. Maravilhoso! Deu até vontade de preparar um caldo, mas fiquei na cama, lendo… com uma xícara de chá em mãos!
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