aspirei o aroma do chá quando a manhã se desenhava aqui e fiquei imaginando as mulheres que você me trouxe pelas mãos, criando em mim uma intimidade a ponto de escrever cartas para elas. Não li esse livro da Lygia, mas foi em homenagem a ela que caminhei no meu lugar, da mesma forma que você fez aí, entre as prateleiras e os quintais da memória. O livro físico guarda o peso, o cheiro e a textura do tempo. É a primeira coisa que faço ao pegar um: cheirá-lo e apertá-lo ao peito. Curiosamente não empresto muito, mas pego bastante emprestado. Sempre devolvo assim que termino de ler; já tenho até as “minhas emprestadoras” de estimação. Os meus, quando já li e reli, esqueço-os em ônibus, em um banco de praça ou doo para as meninas do bairro.
A imagem de Lygia conversando com Mário em 1944 ou segurando a mão de Hilda Hilst em uma cumplicidade de cinquenta anos mostra que a verdadeira literatura é feita de encontros movidos pela paixão. E foi mesmo a paixão pela literatura que nos uniu, mesmo com os 1.540 km que nos separam. Acho que é essa paixão que rasga a alma e nos faz acreditar que um poeta não morre. Eles continuam vivos e viscerais a cada vez que a gente coloca a água no fogo e aceita tomar esse estranho chá com eles através das palavras.
Mário, Cecília, Clarice, Lygia e Hilda… todos eles continuam sentados à nossa mesa, dividindo os galhos mais altos da jabuticabeira ou do pé de ipê, e os rascunhos que insistimos em tirar do casulo. Seguimos encomendando nossos livros físicos e esperando o tempo da infusão, sorvendo lembranças que, de tanto que nos tocam, acabam sendo nossas também.
Mariana Gouveia









