Corredores, Codinome Locura

Nem todo dia tem noite pros lados do Sul.

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Efeito borboleta

Ph: Laura Makabresku

 

I

Em gaiolas a boca
rouba a chave e liberta-se para o beijo.

II
A liberdade chama-se a doçura
do beijo dela.

III

E o voo conhece o ninho
no céu
da boca.

Uma vez, me disseram que o mistério do corpo está na boca. Na época, eu questionei e disse sobre ser o coração. Hoje, eu teria motivos para afirmar que é a mais pura verdade. É a boca mesmo o mistério do corpo.

Quando a vi pela primeira vez, ela tentava em vão, na minha frente, a encontrar o cartão transporte dentro da bolsa e travava a roleta. Depois de minutos que pareciam uma eternidade, peguei o meu cartão e disse para ela passar. O que foi um alívio para o motorista e o restante dos passageiros que insistiam em subir no ônibus. Indicou-me o banco ao lado dela que triunfante exibia o cartão encontrado.
– Às vezes, quando você quer algo a bolsa esconde. Parece mágica. – disse rindo – foi quando reparei na boca dela, entre a suavidade e um mistério.
Agradeceu meu gesto e colocou o fone, embalando o corpo ao som de uma música, que confesso desejei saber quem era.
– Amy. Você curte? – disse ela, como se tivesse ouvido meus pensamentos.
Disse que sim com um sinal de cabeça, já maravilhada pelo jeito que ela movimentava o corpo ao ritmo de alguma música qualquer de Amy.
Assustei-me quando ela estendeu a mão dividindo comigo o fone e com isso pude ouvir o refrão de Will you still love me tomorrow.
Ficamos próximas uma da outra e o perfume cítrico dela me inundou. Ela me instigou a seguir o ritmo da música. Fiquei ali como que encantada pela boca dela que repetia as palavras de Amy e quase perdi o ponto de descer.

Não perguntei o nome, nem nada. Fiquei apenas com o refrão da canção e o riso e o perfume dela a povoar minha mente.
|Alguém uma vez me disse que as borboletas causavam efeitos que podiam mudar o mundo|

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.
Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.
– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.
O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.
O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.
E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

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6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele

Sempre respondo a pergunta de como e porquê me tornei escritora e qual é a sensação de escrever um livro. Claro que a influência de minha mãe – que amava livros – cabe nas minhas respostas. Desde pequena, eu e meus irmãos fomos incentivados a ler por ela. No meio de sete crianças, era natural que algum ou outro não morresse de amor pelos livros. Um seguiu outro tipo de arte, outras, partiram para o artesanato.

Quando li seu texto de hoje sobre livros e escritores, as lembranças me levaram até meu pai. Talvez, minha maior inspiração era os causos que ele contava e eu nem tenha me dado conta disso, porque lá no início da minha escrita, ainda criança, queria ser contadora de histórias, como ele. É o que acaba se tornando um escritor… um contador de histórias.

Enchi cadernos e mais cadernos de causos que eu queria contar e dizia que se eu tivesse pelo menos um expectador para ouvir, já estava de bom tamanho. Como eu havia crescido em uma fazenda, minhas histórias envolvia a natureza, os bichos, os homens do lugar, até que surgiu o primeiro amor, a mudança para a cidade grande. Foi quando caiu em minhas mãos a vivência de Maria – minha personagem do meu primeiro romance Corredores – codinome: loucura.

Meu pai ainda viu meus sete livros serem lançados, no formato tão cheio de ternura que eu nem poderia imaginar. Um livro artesanal, costurado com fitas de cetim, com toda dedicação de sua curadoria e do Marco Antônio, que deixa em mim tanto afeto e saudades. Tenho certeza de que cada leitor que recebeu em mãos um desses livros teve o mesmo brilho nos olhos que meu pai, mesmo que nos últimos lançados, ele quase não entendia o que a gente lia.

Ainda tenho algumas histórias para contar. Ainda quero tocar o coração de quem me lê e sendo repetitiva, ainda quero que você edite as minhas palavras com a mesma emoção com que toca minha alma e me alcança todos os dias em causos onde a gente ri, chora e nos cruzamos entre quintais, esquinas, luas, tempestades e sóis.

Mariana Gouveia

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6 on 6 – Seis livros e uma xícara de chá.

Bambina mia,

Ainda ontem te convidei para uma xícara de chá e relatei meu ritual com as xícaras. Não me lembro se te contei sobre a importância do chá na minha vida. Aprendi desde cedo a providenciar o rito do chá, claro que sob os cuidados de bá e da minha mãe, por isso, quando chegou até mim o tema eu me animei para a preparação. O livro sempre é companhia para a xícara de chá de fumega ao lado, enquanto lá fora chove ou venta.

Atrevi-me a fazer os chás terapêuticos devido a uma gripe forte que me deixou de cama nesse início de ano. Coloquei em infusão as rosas amarelas – ricas em vitamina C e um antioxidante natural – e adocei com mel. A rosa amarela tem outras propriedades medicinais, mas eu me alongaria muito aqui para nomear todas.

Enquanto a manhã acontecia recorri ao chá de gengibre, cravo e canela. É anti-inflamatório e o combinado dos itens também ajuda no controle da glicemia. Optei pelo gengibre fresco e o aroma invadiu minha cozinha. Sabe, bambina, me trouxe lembranças da infância e do bolo de puba servido com esse chá.

A minha mãe tinha todo um aparato para os chás. As xícaras de porcelanas e os bules acompanhando as xícaras. Eram presentes de casamento. O caldeirão de água ficava o tempo todo em cima do fogão de lenha, já fervente. Mas eu, só tenho xícaras avulsas de minha coleção, e algumas possui o pires combinando. Nessa foto, o chá foi feita de erva cidreira, fresquinha, colhida do pé no quintal. É a melissa – outro nome chic dela – e suas propriedades vai desde calmante, analgésicas e anti-inflamatórias.

E para combinar com o livro Linhas, rabiscos e borrões em azul o meu preferido chá azul. Feito com as flores da Clitória Tematea… além de lindo, é muito gostoso. Com propriedades que melhoram desde a circulação, controle de glicemia, colesterol e o que torna ele mais legal, além do colorido, é que pode ser tomado gelado.

E claro que combinado com flores de alfavaca o chá fica mais gostoso ainda. Alfavaca que muitos chamam de manjericão de folhas largas e deixa a cozinha com seu aroma delicioso. Um dos pontos chaves dessa mistura é a ação antimicrobiana. De resto, é aproveitar a leitura e o chá.

Gosto de acrescentar ao chá de canela e cravo cascas de maçã. Alivia a tensão e ajuda na circulação e controle de glicemia. Porém, deixo claro que faço uso desses chás aqui desde pequena. Mas do que servir como medicamento, é necessário ter conhecimento de que você tomar alguns deles. A minha variedade de chás é grande e faço uso deles ao ler um livro, antes de deitar e sempre que sinto vontade. A preparação para mim se transforma em poesia.

Sei que te convidei para um chá, bambina e trouxe aqui um apanhado de minhas experiências e sobre a preparação, assim como algumas dicas para quem vier ler essa missiva… Além de saborear esse líquido com livros em mãos, o melhor mesmo foi sua companhia.

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi Silvana Lopes
Ps: para quem tiver interesse há muito mais sobre chás aqui

Corredores, Codinome Locura

Conversas aleatórias com o sol.

Dia 6.

Eu sei que você espera que eu defina a
rota dos pássaros e que diga que o
coração sabe o caminho certo para o ninho. Mas o coração é apenas um
músculo – como o mar é a rota do Sol
no fim do dia.
Só quero que saiba que apesar do azul
do céu em alguns dias parecer cinza,
durante os próximos séculos te buscarei
além das nuvens.
Foi tudo tão temporário dentro do nosso
tempo que paro no silêncio de suas
palavras. E chego a duvidar de que você
realmente existiu.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 2 –

O desafio em dias nublados é
descobrir-te entre as nuvens. Como aqui,
você sempre é o rei maior nessa parede
que é o céu… sua ardência atravessa a camada de nuvens e seus raios fazem morada aqui.
O azul é o manto que me acolhe
enquanto te busco nas sombras das
paredes dos muros – criando figuras para meu imaginário. Descubro que
te quero no meu corpo. Mas fujo de você
quando me aquece demais.  Abrasante,
domina o espaço para além das horas
e o vento brinca de te encobrir
entre as nuvens.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Beda – Bordar o sol no teu céu,

Bordar o sol no teu céu,

feito moldura de retrato pendurado dando lembranças ao coração do que viveu.

Colher para você as nuvens que douram o caminho por onde ele passa.

Viver em teus dias como manhãs douradas e tardes que se alaranja e tem cheiro de alfazema no quintal.

A vida segue na rotina dos dias. E meu amor é só teu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Beda – Dos diários

Desde pequena queria escrever um diário. Fazia isso em tudo que podia. Papel de pão, folhas pela metade. Não podia estragar os cadernos de escolas com bobagens – alguém dizia.
A mãe a incentivava a escrever tudo que via. A ver a miudeza das coisas e foi por ela que passou a encantar-se com os insetos, os animais – mesmo aqueles que todos os irmãos tinham medo. Era registrar o dia em palavras: Hoje havia visto o sol e por ali, descrevia o rumo das cores que debruçava sobre as nuvens, o calor que aquecia a pele e até mesmo o impossível amor dele, o sol, pela lua.
Descobria a singeleza das coisas no construir das moradias dos insetos. Da formiga que embrenhava terra adentro com seu caminhar incessante pelo mato, pelas folhas;
da borboleta que fazia seu casulo na folha da couve e no marimbondo que pacientemente construía seu castelo.
A mãe lia as histórias como quem desvendava sua alma e seu riso era a parte mais linda do dia.

Mariana Gouveia