Hoje – dizem – é o dia mundial do livro. Para mim, o livro vai além dos dias. Estou lendo pela quarta vez Vermelho por dentro, de Lunna Guedes.
É um livro que tira seu fôlego e te embriaga já nas primeiras linhas. Depois, você vai sorvendo aos poucos a escrita de Lunna.
Quando eu comecei a escrever eu só queria ser lida, contar histórias… O livro nos leva para onde a gente quiser.
Viva o livro! Viva Vermelho por dentro!
Se tiver interesse, clica aqui e se delicie com os livros da Scenarium Livros Artesanais.
…
ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem, diz em seu ouvido – ‘passa o resto da sua vida comigo?’ E nada mais teve importância. A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.
mas havia, também, qualquer coisa de louca não sei se o jeito de olhar. O atrever-se com as mãos ou o recato do decote, tão íntimo. Havia qualquer coisa de tímida, mas, também havia qualquer coisa de exibicionista. Não sei se o riso solto ou a voz quase rindo, quase suspiro. Havia qualquer coisa de pecado, de sagrado também… e profanava em mim nas mãos que me descobria a alma
Mariana Gouveia O Lado de Dentro Scenarium Livros artesanais
Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.
Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.
Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!
Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.
Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.
Mariana Gouveia Desvios para Atravessar Quintais Scenarium Livros Artesanais
Quando surgiu o tema do projeto fotográfico 6 on 6 lembrei-me dos rituais de sempre… aqui, para acompanhar a leitura de um livro a companhia da xícara de café é sagrada.
Confesso que devido à cirurgia nos olhos – quase recuperada – e a alguns problemas de saúde o prazer de pegar um livro e ler tem sido bem pouco, ou quase nada. Minha lista de livros só aumenta e retomo essa atividade nos fins de tarde, sempre com minha xícara de café e um lanchinho.
O meu café é mais forte, e claro que aproveito para saborear alguns textos que amo…
Ou para relembrar momentos que me emocionaram…
esses momentos servem para reviver histórias que tocaram meu coração e por consequência…
dão sabor inigualável em uma tarde chuvosa… aceita uma xícara aí?
ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas. é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal. Ondjaki
Bambina mia,
Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.
Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.
Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.
Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.
Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.
Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.
E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:
(…)
é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal. tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.
Grazie mille! bacio, Mariana Gouveia Projeto Fotográfico 6 on 6 Scenarium Livros Artesanais Participam comigo: Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso
Quando a noite vier e o rastro de lua – crescente – a tocar o céu, como véu. A folhagem a ser miragem dentro dela. O pássaro fazendo sombra no amor. Era assim que falávamos de voar. Podia ter sido em outro século. Podia ter sido agora ou ontem. Mas, foi em um rastro de lua.
Mariana Gouveia Projeto Coletivo Sete Luas – Scenarium Livros Artesanais