Quando a vida ainda dorme de manhã colorindo sonhos e você vaga nas lembranças pelo meu quintal, eu sinto o sol raiar nesse dia de Agosto. A lembrança de tua voz nesse alegre toque de vida te traz até aqui. Te mostro os corações que as flores formam ao se juntar e a delicadeza do sono do beija-flor. Sussurro quase para não acordá-lo. Espanto Lolla, que teima em querer latir ao ver o gato no telhado. A emoção de estar tão perto que dentro de mim o coração não bate, dança. Espio o sol que espreguiça diante das nuvens e o frio quase miragem passa por aqui em uma frente fria. Um avião cruz o céu e eu te falo dele. Deixa rastros como tiras bordadas num lençol azul. O cheiro de pão na casa vizinha, uma criança que grita do outro lado da rua e o beija-flor ainda dorme dentro do sonho. A vida nos espera para viver o dia. Tão grande presente e majestoso na presença da poesia que renasce todo dia no meu quintal.
A mão dela me trazia barulho do mar. O braço ondula silêncios da tarde Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela… não sabia extrapolar as coisas – dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei. A outra – a de verdade – quebrava regras. Falava alto nas bibliotecas… declarava amor nas livrarias. Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE – e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia. Há sonatas que a areia descreve… E escreve. O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa… Leva na mão o carinho portátil, desse pronto para o uso. Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso. Usa quando tomo um chá de sumiço. Mal sabe ela que toda noite, eu olho para o céu e a encontro em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Dizem que os livros são janelas para novas dimensões… e acho que essas novas dimensões nos levam para caminhos desconhecidos e pessoas que se aconchegam em nossas palavras… os meus livros seguiram caminhos feitos por tanta gente que resolvi te contar. Uns, voaram além mar e foram pousar em Portugal.
Ana Christelo, em Povoa de Varzim, Portugal.
Eu sempre desejei que minhas palavras ganhassem o mundo e que de alguma forma elas pudessem tocar os corações das pessoas. Daí, surgiu você e tuo menino em meus caminhos e deram vazão ao meu sonho. A cada mensagem que eu recebia de alguém que havia lido algo que eu escrevi era como se aquela menina que sempre quis ser contadora de histórias renascesse de novo dentro do mesmo sonho.
Foto feita pela Sandra Silva, em Porto, Portugal
Sabe, atravessar o oceano e caber nas mãos de alguém que a gente gosta e fazer com nossas palavras sintetizem o sentimento para além da poesia é algo magnífico. Devo colocar a culpa em você, que transformou as minhas palavras em livros? Que fez com que meus caminhos literários cruzassem o mundo?
Fotografia envida por Sandra Silva, de Paris
Estar ali, ao alcance das mãos, em uma estante mundo afora, junto com os outros livros preferidos de um leitor é tudo que alguém que escreve sonha. E a gente sabe, e já falamos muito sobre como é difícil enviar livros para fora do Brasil. Uma editora independente, então, fica inviável. Mas, quando de alguma forma isso se torna possível é lindo!
Fotografia enviada por Eduardo Moreira, Meda, Portugal.
Pena, bambina mia que sejam apenas seis fotos… e além de voarem para além dos oceanos, eles também couberam nas mãos e no coração de tanta gente aqui que nem cabem nas fotos. E claro que meus diversos caminhos e desvios atravessaram sentimentos dentro da poesia vivida e sentida.
Cinara Thaís, Cuiabá, MT
Falar sobre quem caminha com a gente através de um livro é como se a gente atravessasse a janela para a nova dimensão que citei lá no início dessa missiva. Algumas pessoas nos sabem tão bem que é como se já tivéssemos nos encontrado em algum canto de esquina, uma rua em um país distante, numa livraria… outras, passam a nos saber pela poesia, pelas cartas, pela história que contamos.
Suzana Martins, São Bernardo do Campo, SP.
Eu ficaria horas aqui, bambina, falando sobre livros, sobre pessoas que nos levam além de palavras e no cuore… Mas, ainda estou limitada às dores e o que me cabe aqui é agradecer… À você e ao tuo menino que voou para a imensidão, mas que deixou em mim um carinho do tamanho da saudade que sinto dele. Se meus livros ganharam vida além das folhas em papel e chegaram em tantas mãos mundo afora, as mãos dele e as tuas fizeram com arte o sonho se tornar realidade.
Hoje – dizem – é o dia mundial do livro. Para mim, o livro vai além dos dias. Estou lendo pela quarta vez Vermelho por dentro, de Lunna Guedes.
É um livro que tira seu fôlego e te embriaga já nas primeiras linhas. Depois, você vai sorvendo aos poucos a escrita de Lunna.
Quando eu comecei a escrever eu só queria ser lida, contar histórias… O livro nos leva para onde a gente quiser.
Viva o livro! Viva Vermelho por dentro!
Se tiver interesse, clica aqui e se delicie com os livros da Scenarium Livros Artesanais.
…
ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem, diz em seu ouvido – ‘passa o resto da sua vida comigo?’ E nada mais teve importância. A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.
Quando rasguei o nome no peito…Tirei do ventre a palavra voo e chorei pelos números de nomes que voaram entrelaçados dentro da ausência vivida. Nem era dia especial e o silêncio se fez de vento no varal e as esperas aconteciam e a gente sabia que não ia chegar. Algumas partidas acontecem como voos de pássaros ou como pouso em um dia de silêncio.
Depois da chuva a vida dança ligeira no quintal. Tem vento que balança as cortinas e leva as folhas para lá e para cá.
Tem o pássaro de todo dia, jeitinho de ave e bico molhado de chuva. Tem abril caindo direto na estação e trovão a cantar nome dentro da tarde.
Depois da chuva o vento que mora na árvore corre arteiro pelo quintal e esparrama a cores do outono aqui e ali… eu ouço canções de outros tempos e relembro a data que se repete na memória do tempo.
O dia era o dia proibido e a palavra da infância era o não.
Às vezes, a história do homem crucificado era exposta em fatos e dados reais. Meu pai tinha o poder de conduzir os “causos” e nos envolver dentro dos exemplos que ele nos queria passar e passou.
Alguns rituais eu sigo até hoje… Outros, ganharam minha própria interpretação.
A fé exposta nas palavras de amor… igual ao vento, depois da chuva… Igual ao pássaro de todo dia, com jeitinho de ave, bico molhado de chuva…
Lembrava da chuva na poça d’água e pouso do pássaro o aconchego do voo. Havia um tempo dentro da estação e o equilíbrio vivo na fé.
O dia da força da natureza, a leveza do riso do sobrinho e saudade escolhida a dedo. Os bibelôs intactos na estante e a solidez nos vãos do quintal. Não existe um dia fora dele mesmo junto da imperfeição…
mas havia, também, qualquer coisa de louca não sei se o jeito de olhar. O atrever-se com as mãos ou o recato do decote, tão íntimo. Havia qualquer coisa de tímida, mas, também havia qualquer coisa de exibicionista. Não sei se o riso solto ou a voz quase rindo, quase suspiro. Havia qualquer coisa de pecado, de sagrado também… e profanava em mim nas mãos que me descobria a alma
Mariana Gouveia O Lado de Dentro Scenarium Livros artesanais