Fazia perguntas a si mesma já com a resposta encravada na garganta como se fosse lâmina – pode, mas não deve. queria dizer – faço porque quero. Como a nuvem que traz o trovão … ecoando céu afora. Pensou na pureza dos desejos indecifráveis e suspirou Nem era farol, nem norte. Apenas rota – cruzando caminhos.
Mariana Gouveia Coletivo de Poesias Mulher de Nuvem Scenarium Livros Artesanais
Fiz biscoito de polvilho e revisitei as coisas que me acompanham a vida toda. Descobri que meus tesouros são os mesmos que eram de minha mãe. A caixa de costura e suas agulhas de vários tamanhos, em cobre, e o dedal. O bastidor, tão antigo — ela dizia — amãe, a avó o usaram, a bisavó não… E a máquina Singer, com suas correias cantoras.
Quando minha mãe se foi, o pequeno tesouro ficou comigo. A panela preta de três pés — que hoje serve de suporte para as flores que enfeitam a mesa, também. O caldeirão de fazer o feijão, o bowl de alumínio batido e a compoteira de vidro.
As compotas eram servidas ali, combinando com as taças e a colher. A frigideira de fritar ovos, com o cabo de madeira… Minha irmã mais velha disse que acompanhou o nascimento de todos os sete filhos, ali, pendurada na prateleira com as panelas de alumínio. O tacho de cobre e o pequeno filtro de barro — uma das miudezas que guardo dentro da estante e faz companhia para as porcelanas. Os três frades com um copo-garrafa nas mãos. O elefante amarelo, a xícara de ágata e suas florzinhas vermelhas.
É como se eu tivesse ficado com os tesouros da família. E nos encontros com os irmãos, os objetos servem para reavivar as lembranças.
As panelinhas tão minúsculas — quatro ao todo — que minhas irmãs e eu brincávamos de cozinhadinha. A rabinha de fazer café, em alumínio puro… Cada uma das irmãs — as quatro — têm as suas miniaturas.
No baú, a foto em preto e branco, a última carta escrita pela minha mãe e uma caixa de chapéu com os riscos de bordados que ela criou. Tudo exposto dentro de minhas lembranças.
Agora que o tempo ultrapassou o próprio tempo, conto os anos que cada objeto tem. Alguém da família disse uma vez: talmãe,talfilha. Como se as relíquias guardadas nas caixas, expostas em uma mesa com a toalha de crochê fossem tralhas.
Cada um deles tem um significado,
com nossa história particular.
Das minhas coisas, para além da herança, a fita de veludo laranja que enfeitava minhas tranças, o caderno de poesia com as letras miúdas que eu “roubei” da irmã mais velha. O primeiro vestido da sobrinha com flores miúdas azuis… A primeira camisa do meu filho, que eu mesma costurei quando ele completou um mês… O papel da balinha e o palito do sorvete que dividi com Ana — a de Marte — os tsurus e os quadrinhos com os kanjis… O coração da Maricota — a boneca de pano despedaçada pela Meg — minha cachorrinha que já se foi…
Um único brinco em forma de grão de arroz, par do outro perdido e as lembranças tantas, expostas em um quadro único, em letras garrafais contando a minha história em delicados instantes.
Mariana Gouveia Texto publicado no Coletivo Armário das Maravilhas Scenarium Livros artesanais
Da última vez que te escrevi… a aldeia estava em fogo. Havia muito cinza e tentávamos salvar animais e as plantações. Muita coisa mudou desde então. A aldeia reagiu e hoje, tudo floresce. Até minha ligação com a aldeia mudou. Ficou restrita ao simples acompanhamento através de amigos, embora o laço seja para sempre.
Hoje, o que assola o mundo não tem cor. É um vírus – que alguns dizem ser inventado e que ignoro para não brigar com parentes via mensagens das redes sociais – você imaginaria rede sociais no seu tempo? Você seria crucificada, pode apostar!
Daqui de onde estou, me sinto privilegiada. Vejo a lua, converso com o sol, confabulo com os pássaros, traços rotas imaginárias em um corpo que nunca visitei. Danço com o vento. Leio livros de poesias… rasgo verbos sem nexos com as joaninhas. E só descubro o mundo lá fora através das manchetes de jornais e sites que relatam sobre um vírus que faz vítimas nos cinco continentes.
Por aqui, o pé de ipê já deu duas floradas, desde a última carta e nasceu mais um tanto de flores que guardei os nomes em um pote… para fazer a bendita plaquinha e colar depois. Mas sempre as chamo de filha… é uma coisa que vem da infância e sabe-se lá quando vou perder essa mania. Porque aqui, tudo vira filha ou filho, seja bicho, pássaro, árvore, flor ou vento… e reza.
Com a lua não… Com a lua, traço conversas rente a pele. Me descubro mulher, a mesma que devora os poemas e canta. Sou a que se envolve e grita a liberdade, mas por enquanto, dentro das paredes dos meus muros.
Beijo, Mariana Carta publicada no Projeto Coletivo Mulher Proibida Scenarium Livros Artesanais
Às vezes, a noite é esse eco devastador dentro do peito. Você, por acaso, se lembraria de mim? É uma pergunta que me faço todas as noites para no minuto seguinte imaginar se outra pessoa teria cruzado o seu caminho e descoberto a joia rara que você é. Não é impossível…
Enquanto te escrevo de meus aposentos, ouço a mesma canção que toquei em sua casa. Cole Porter nunca mais foi o mesmo para mim. Cada vez que consigo um instante para me sentar ao piano… a única memória que atraca em meu corpo é a sua, ali, com as pernas cruzadas… e a abertura do vestido me fazendo sentir tal qual um adolescente — ansioso pela primeira vez.
Enquanto o som do piano enchia a sala. Vi em seus olhos o encantamento… não sei se foi pela canção ou pelo mesmo entusiasmo que eu. Só sei que ali, pareceu que nossas almas se uniram e uma espera teve fim para que outra se iniciasse. Não é sempre assim?
Depois daquela noite, meus compromissos me levaram vida afora e o Brasil ficou distante geograficamente — mas tão perto de mim nas lembranças. Antes do embarque, quase desisti. Um homem não pode fugir a compromissos firmados, minha querida. Eu cresci com essa frase espetada em meus ouvidos, em diferentes idiomas. Fui lembrado do meu lugar no mundo, em meu país. Tudo foi traçado no exato instante em que eu fui concebido. Nada fugiu ao discurso até aqui, apenas o coração, querida, que não aceitou o enredo.
Eu prometi que voltaria e o farei em algum momento. Ainda que seja para lhe rever uma última vez, como naquele filme em preto e branco, antigo, que tanto gostas. Será que pensa em mim quando os personagens se encontram e se apaixonam à primeira vista?
...
Oh, my dear, o gosto do vinho em sua boca embriagou a minha alma e eu, logo eu, que sempre fui tão livre de amar, me vi — em poucos dias — enlouquecendo nas noites. Imaginando você nos braços de outros. Essa é uma das torturas que pratico todas as noites. Imaginá-la em outros braços, com movimentos de pernas, quadris. A maneira como os olhos de outro homem a devoram — silenciosos. As mãos tateiam sua pele aquecida. E o que era imaginação vira lembrança e eu bebo tudo junto como um gin tônica.
Não sei se ainda me espera! Se a sua solidão, depois que amanhece, é a mesma minha. Que face seus espelhos revelam quando você se reflete neles? Que pensamentos ocupam o seu coração antes de dormir? Será que se lembra de nós dois em cada amanhecer? O meu cheiro ainda se mistura ao seu, entre lençóis?
Já estive em cada canto desse universo depois de tê-la e, em cada um desses lugares, vi alguém parecido com você. Cheguei a abordar uma moça pelo braço — coitada! —pensando tê-la reencontrado. Em Paris, persegui uma bela Mulher, elegantemente vestida. Tinha o seu caminhar seguro e ousado. Mas, não era você. Poderia ser, porque a gente nunca sabe quando o destino irá nos surpreender (de novo).
Eu tentei outros amores, minha querida. Mas, ninguém conseguiu preencher certos espaços. E eu não consegui salvar nenhuma nação. Os planos foram desgastados — como você previu e eu fui murchando, desanimando um pouco mais. Tornei-me um homem diferente. Talvez esteja irreconhecível aos seus olhos, que viu o melhor de mim. Tanto vigor, paixão, planos. Hoje eu sou apenas alguém que finge, como o poeta português. Sou marido-pai, tenho uma coroa que pesa horrores e atribuições pensadas para o bem de alguns, sempre os mesmos, minha querida. Não tenho paz. O mundo está caótico e as delicadezas só me absorvem nas canções… em muitas noites, acordo em sobressalto pensando que é você para além do jardim.
Já passei por invernos rigorosos, verões abrasadores e primaveras quentes, em manhãs quase igual a que vivemos… porém, foi em um outono recente e sem cor que decidi escrever e dizer: estou voltando. Que a vida não tem graça depois que você cruzou o meu caminho. Os dias se tornaram comuns dentro de mim e eu preciso de sua luz. Quero alcançar a Lua que dorme em seu peito.
Será que você abriria as portas de seus salões para mim? Me reconheceria? Seria eu, declarado Rei, também em teus domínios?
Seu súdito!
Mariana Gouveia Carta publicada no projeto Coletivo Casa de Marimbondos Scenarium Livros Artesanais
Lhe disseram que em noite de eclipse Semear é quase fazer amor com a semente… Buscou no calendário pela data certa Mas o gozo chegou antes e a semente brotou…
Nisia surgiu por acaso. Era a vizinha da terceira casa da rua sem asfalto onde morei por cinco anos. Eu, com os meus dezoito anos descobrindo a sexualidade e ela, saindo de um casamento violento, sedenta por liberdade. Embora bem mais nova, parecia que era o contrário.
Quando vi o sorriso dela pela primeira vez — que nem era dirigido para mim — senti que fui fisgada.
Um aceno, as boas-vindas e quando dei por mim, estava adentrando a casa dela, como se fosse minha.
Ficamos amigas e ficou impossível ver uma sem a outra.
Como eu adorava ver o riso solto que Nísia oferecia a todos e ela adorava as minhas tranças.
A princípio a conversa foi sobre livros — uma paixão em comum.
Mas não era a única: vestidos, flores e comidas.
Eu adorava vê-la atrás do balcão de sua cozinha de piso queimado vermelho, preparando petiscos e servindo a minha boca, com sua gentileza rotineira.
Com ela, aprendi tudo que sei a respeito de vinhos. Foi depois de umas taças a mais que nos surpreendemos tão próximas uma da outra, com as mãos buscando pele e revolvendo toques.
Nem eu e muito menos ela tinha experimentado o feminino. Mas era como se conhecêssemos o corpo uma da outra e soubesse por onde avançar e como agir.
Não houve medo ou recusa. Nós oferecemos aos caprichos…
Nísia tornou-se minha amante, mulher, namorada e amiga. Tudo que queríamos era estar uma com a outra, uma na outra pelas horas dos dias, das noites e se o tempo parasse, melhor ainda.
E como tudo começou em um rompante… O fim seguiu pelo mesmo caminho… como se fosse uma rua sem saída.
Eu me lembrava dela como se tudo que experimentamos fosse um sonho. A realidade não cabia dentro de tudo o que vivemos naqueles dias.
Ela surgia com seu jeito de menina e aquele andar esguio de quem aprende a se equilibrar em saltos, cambaleando vez ou outra. Procurava alguma coisa no meu armário. Tinha predileção pelo soutien vermelho, que ficava perfeito em seu corpo moreno.
Exibia-se para o espelho e enviesava o olhar para se certificar de que eu estava ali, a espiá-la.
Ela me olhava com fome de uma vida inteira.
Passava o dedo em minha boca. Dava ordens. Eu cumpria. Aqui, bem aqui! — e ali… Eu descobri o paraíso.
Bebia no ápice, meu gozo. Andava de um lugar para o outro e o céu e seu eclipse solar.
Éramos diurnas, feitas de sol… e para abrasar o calor: a água…
O sabonete passeando pela pele. Ela ficava quieta num canto e eu a falar e falar… da estação preferia. A Primavera era ela… Eu era o outono. A maneira como o sol ardia lá fora. O halo ao redor do sol e eu ao redor dela. Não sei se era sonho… parecia que era.
Eu via a Lua dar uma mordida no sol. O eclipse para ela era poesia e eu era um verso em sua boca.
Mas quem escrevia era eu… E fiz dela um parágrafo inteiro. O conflito que o conto pede. O fio condutor de uma trama perfeita. Um romance com começo e meio…
Ela era a protagonista e eu, a narradora. Tudo na Primeira Pessoa… do nosso plural.
Cenas e mais cenas onde beijos lambem bocas e a línguas passeiam pela pele. A lua a parir mil estrelas dentro de mim. Grávida de nós duas e um parto da soma dos iguais.
Estava no quintal da frente a olhar para o céu, quando ela apareceu e acenou. Prometeu voltar… e se foi.
Antes, deitou na minha boca um beijo de até logo. O sabor que ficou… foi de adeus.
Na minha mão direita, uma flor — coisa de música antiga que, vez ou outra, me surpreendo cantarolando, como se a nossa voz se misturasse de novo e de novo e de novo… principalmente quando passo pela rua de terra e olho na direção da casa onde agora, residem outras pessoas.
Parece sonho… e talvez seja!
Mas, eu ainda tenho na boca o gosto do beijo… e na pele o jeito do toque e na vontade, a fome-sede e as minhas mãos a temperatura
de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.
Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.
Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.
Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.
E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?
E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!
Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.
Na cadência dos teus abraços Sou uma marionete dos Desejos
E me perco — mais de uma vez — em teus Labirintos!
Uma peregrina em tua pele branca
A boca repete em idioma estrangeiro o quero-te… enquanto me despe. Te encaro dentro da minha conjectura — ilusão provocada pela alta temperatura que vaporiza o teu corpo quando tento tocá-lo…
Mariana Gouveia In, Liláses – o estado da pele Scenarium Livros Artesanais
A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…
Mariana Gouveia Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais Você pode pedir o seu aqui