Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar.

Ph: Hanne Feldt

Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.

Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.

Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!

Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.

Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Alice - Uma Voz nas Pedras · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – cult coffee and books

Quando surgiu o tema do projeto fotográfico 6 on 6 lembrei-me dos rituais de sempre… aqui, para acompanhar a leitura de um livro a companhia da xícara de café é sagrada.

Confesso que devido à cirurgia nos olhos – quase recuperada – e a alguns problemas de saúde o prazer de pegar um livro e ler tem sido bem pouco, ou quase nada. Minha lista de livros só aumenta e retomo essa atividade nos fins de tarde, sempre com minha xícara de café e um lanchinho.

O meu café é mais forte, e claro que aproveito para saborear alguns textos que amo…

Ou para relembrar momentos que me emocionaram…

esses momentos servem para reviver histórias que tocaram meu coração e por consequência…

dão sabor inigualável em uma tarde chuvosa… aceita uma xícara aí?

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – manias literárias

o afecto dentro da palavra ‘quintal


ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas.
é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal.
Ondjaki

Bambina mia,

Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.

Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.

Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.

Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.

Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.

Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.

E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:


(…)

é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal.
tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.

Grazie mille!
bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

 É aleatório as denominações das estações

O sol do meio-dia reascende o calor do meu lugar. Inverno é coisa que não existe no calendário daqui. É contraditório, eu sei, mas para quem conhece o lugar – ou já leu sobre – sabe que a estação aqui, é aleatório às denominações.
A ave do encantamento apareceu de novo. Cantou para além das flores do ipê. Viveu coisas de primavera nas flores e depois, foi ser voo em um céu de nuvens.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Mulher de nuvem

Um dia,
decidiu que não levaria consigo
de herança das outras
as tantas que queriam
indicá-lhes caminhos
podar as vontades…

queria apenas ser….

Tal qual a nuvem
que passeia com ritmo
e a velocidade do vento
na atmosfera.

Saiu de tudo isso
como se tivesse travado
uma batalha.
alguém lhe falou
dos ideais,
da bravura
e mais uma vez,
da submissão.

Mariana Gouveia
In Mulher de nuvem
Projeto Coletivo
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Borda-se a pele com fios e letras soltas · Scenarium Livros Artesanais

Azul em qualquer céu

O sol desenhou no lago
… A invasão do eclipse
– dentro dele.

Suspensa em minha mão…
A saudade.

O sol levou minha mão
pelo labirinto do céu
… e suas nuances de azul.

Mariana Gouveia
Borda-se a pele com fios e letras soltas
@scenariumlivros

Corredores, Codinome Locura

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Testamento

Deixo-te de herança o sol das manhãs
que incendeiam
as cortinas
da minha janela.

Deixo também
o pássaro que voa
solitário e rotineiro
… que vem todos os dias.

Deixo-te a esperança
nas manhãs ensolaradas
e a saudade do sol
nas manhãs cinzentas.

Os poemas feitos em melodias
que dedico em tua sintonia são seus.
pegue-os.

Espalhe via vento
para que eles dancem
com a música que dediquei a você.

Aqui, o céu é mil vezes dourado
e colhe rotinas quando a manhã surge
– esse mesmo céu que te deixo como herança.

Deixo-te as minhas risadas
e o pensamento amoroso
com que amanheço…
porque minha maior riqueza
é o meu amor, que é seu.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro/Borda-se a pele com fios e letras soltas
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

em um rastro de lua.

Quando a noite vier e o rastro de lua – crescente – a tocar o céu, como véu.
A folhagem a ser miragem dentro dela. O pássaro fazendo sombra no amor. Era assim que falávamos de voar. Podia ter sido em outro século. Podia ter sido agora ou ontem. Mas, foi em um rastro de lua.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Sete Luas –
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Álbum de fotografias

O cabelo, da avó –
enrolado no alto da cabeça, preso
sem nenhum fio suspenso

O olho perdido, distante
como quem busca por uma palavra
Família.

Todos enfileirados em pose
para mostrar a essência –
do sobrenome que todos
carregavam.

Em preto e branco,
o momento registrado

Faz companhia ao neto
em noites de insônia
Memória futura – vasculhada
nas gavetas da estante da sala.

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo do Clube do Livro artesanal Álbum de Fotografias
Scenarium Livros Artesanais