Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Nos aposentos fechados para os dias

Tropeço nas coisas que eu esqueci pela
sala. O interruptor acende ao meu toque
e a luz pálida ilumina lugares que prefiro
não ver. As fotos estão dispostas em fila
no móvel. Ao lado, a agenda esquecida
pela manhã. Na geladeira, não há quase
nada comível. Apenas um tomate que
escapou da última salada, alguns biscoitos
recheados e um iogurte com data de
validade suspeita.
A mente me leva para lugares onde eu
gostaria de estar. A rua de cima e a casa
com seus quintais floridos. Da janela,
vejo vultos das folhas do
hibiscus mutabilis que dançam
a melodia noturna e brincam com a lua
que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço oco de solidão
dentro de mim. Converso com os
cachorros para evitar a sensação de vazio

que me atinge. Parecem tão solitários
no sono de cada um que nem me ouvem.
Abanam o rabo por instinto,
sem despertar e continuam a sonhar
com o mundo dos cães.

O chuveiro me chama para o banho.

A melodia da água caindo quase me
acordou desse transe. Mas o silêncio dos
cômodos e a ausência de sono nos meus
olhos, tão abertos, esfregam na minha
cara, o quanto essa casa estava cheia de
vida, de gente, de presenças.
Eu estou só — não sei se esquecida ou
abandonada. Pela primeira vez,
em não sei quantos anos, que a cama
é só minha. Ao deitar ouço os sons dos
meus ossos e das molas do colchão.
Rangem em conjunto e depois se calam.

Tão angustiante. Pior é o som que vem lá
de fora. Sirenes gritam à noite
e eu sei que alguém se feriu na casa
de cima.

As vozes se misturam em ofensas.

Conto carneiros, estrelas… agrido
o travesseiro. Ouço o meu nome num
tom sussurrante vindo lá de fora.
Viro de lado. Canto canções
de antigamente. Minha voz não é mais
a mesma e se mistura a outras tantas.
O sono não me pertence…
É dos cachorros. Abro a janela e deixo a
noite entrar, está tudo tão escuro.
Ouço os pirilampos nos galhos,
no quintal e lá longe, a lua se agiganta
diante de mim.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito
do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Álbum de fotografias

O cabelo, da avó –
enrolado no alto da cabeça, preso
sem nenhum fio suspenso

O olho perdido, distante
como quem busca por uma palavra
Família.

Todos enfileirados em pose
para mostrar a essência –
do sobrenome que todos
carregavam.

Em preto e branco,
o momento registrado

Faz companhia ao neto
em noites de insônia
Memória futura – vasculhada
nas gavetas da estante da sala.

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo do Clube do Livro artesanal Álbum de Fotografias
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Do nó cego ao bordado na alma

Na minha lista de mulheres que me fizeram o que sou, ela não é a primeira.  Mas, é o meu modelo e teve grande influência em tudo que sou. Talvez ela nem saiba que dentro da mulher que sou existe o espelho da mulher que ela é.

Da primeira lembrança, tenho um registro para mostrar: uma foto em preto e branco. Ela vestida de caçadora para uma apresentação da escola. Eu tinha cinco anos e ela… quinze. Eu via a minha irmã mais velha como uma rainha.

Anos mais tarde, a imagem da normalista transformava-se em deusa. O uniforme azul claro – com saia plissada, sapato de verniz, meia três quarto, camisa branca e a gravata – me encantava.

Eu reconhecia o barulho do ônibus que a trazia para casa, todo fim de tarde. Ficava com olho comprido, aguardando que surgisse na estradinha de chão batido para correr até ela e saber tudo que ela havia aprendido durante o dia. Ela não sabe, talvez desconfie… que foi inspiração para a minha poesia, a minha arte e o meu coração porque eu queria ser igual a ela ao crescer.

Vi minha irmã acompanhar a nossa mãe na luta pela vida. Acompanhei a descoberta do amor por um homem e o nascimento dos filhos. Eu sabia que ela era forte, corajosa e precisou ser valente para superar as perdas sofridas. Tempos difíceis que foram se acumulando. A vida exigiu muito dela e ela nem sabia de onde tirava as forças.

Mas eu sabia, era do seu coração. Aprendi com ela o que era cuidado ao vê-la lidar com o nosso pai como se fosse um filho.

Bordadeira e desbravadora. Consciente e sonhadora. Senhora dos rituais da nossa família. Da bá a avó Mariana que não conheci. Mulher da lida com a terra e com os ciclos: do plantio à colheita.

Em nossa linhagem ancestral… é a Matriarca que se vê refletir nos risos das netas. Que aprendeu a cerzir os erros, alinhavar os sonhos e costurar as lembranças em abraços.

E quando pega a tesoura, tecidos e linhas parece consciente de seu papel no mundo… Inspirar!

Quando nos encontramos, ela ainda é a minha “Mia” e quando canta para Manu, Maria e Bianca eu me misturo a elas e completo esse nosso ciclo, de mãos dadas, repetindo cantigas que aprendemos juntas.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Coletivo Clube do livro Artesanal Ciranda – De quantas mulheres somos feitas.
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

À Emily

Emily,

Assim como você, eu nunca recebi uma carta do mundo e já escrevi algumas vezes para ele. Devo te confessar que procuro a parte mais bonita dele. Porque as coisas aí fora estão terríveis demais. Eu já escrevi tantas cartas que não enviei, tantas que embolei e o mundo, em muitos momentos, não foi afável comigo.

Já pensei em enviar postais e falar do meu lugar, das mãos que tocariam os postais da lua. Já imaginou se envio essa lua cheia que clareia todo meu quintal, com seu lume em sua fase mais bela?

Com quais mãos ele – tão cruel em alguns dias – receberia meu afago? Emily, às vezes, penso em gritar para o carteiro e perguntar se ele mandou um bilhete, um manuscrito que só eu e ele entendemos…  mas, o moço que estende as mãos com envelopes pardos e seu uniforme amarelo me diz que tem saudades das cartas em envelopes branco e suas listras verde e amarelo – cores que me aborrecem no hoje – e eu apenas aceno com a cabeça.

Acho que pensamos as mesmas coisas – notícias simples da natureza… mas, ele entenderia o meu pé de ipê florido em uma tarde de fim de agosto, quase 40º e o sabiá laranjeira pedindo chuva? Ou da solidão que minha alma sente – quem sabe a mesma sua – em dias mornos.

Sabe, Emily, eu sempre escrevi cartas e sempre esperei respostas. Seja do mundo, ou dessa solidão desvairada. Fiquei de mãos vazias tantas vezes – assim como você – e minhas mãos de camponesa cavou silêncios… de afáveis, colho borboletas… será que a resposta virá em forma de asas? Ou eco de tambores?

Você percebeu, Emily, que sou muita perguntadora e que quando vi sua solidão imensurável, nas faltas de respostas desse mundo que se ativa cada vez que escrevemos poemas provocou em mim a mesma solidão.

Eu também sofro das noites insones e sou viciada nesse som de envelopes recém rasgados e do cheiro da cola quando selo um deles.

Eu sou a louca das cartas que nunca tem respostas… as minhas, muitas vezes, já nascem desfeitas mesmo antes que eu as escreva.

Portanto, Emily, junto minha solidão à tua… minhas palavras se esbarram na branda majestade que endereçam a verdade de quem escreve esse vazio, em forma de poema. Aqui não acontece nada… é apenas esse vácuo, de uma resposta que a gente já sabe que o mundo ficará devendo.

Com carinho,
Mariana Gouveia
Carta a publicada no Coletivo A terceira noite
Scenarium 8
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Meus tesouros

Fiz biscoito de polvilho e revisitei as coisas que me acompanham a vida toda. Descobri que meus tesouros são os mesmos que eram de minha mãe. A caixa de costura e suas agulhas de vários tamanhos, em cobre, e o dedal. O bastidor, tão antigo — ela dizia — a mãe, a avó o usaram, a bisavó não… E a máquina Singer, com suas correias cantoras.

Quando minha mãe se foi, o pequeno tesouro ficou comigo. A panela preta de três pés — que hoje serve de suporte para as flores que enfeitam a mesa, também. O caldeirão de fazer o feijão, o bowl de alumínio batido e a compoteira de vidro.

As compotas eram servidas ali, combinando com as taças e a colher. A frigideira de fritar ovos, com o cabo de madeira… Minha irmã mais velha disse que acompanhou o nascimento de todos os sete filhos, ali, pendurada na prateleira com as panelas de alumínio. O tacho de cobre e o pequeno filtro de barro — uma das miudezas que guardo dentro da estante e faz companhia para as porcelanas. Os três frades com um copo-garrafa nas mãos. O elefante amarelo, a xícara de ágata e suas florzinhas vermelhas.

É como se eu tivesse ficado com os tesouros da família. E nos encontros com os irmãos, os objetos servem para reavivar as lembranças.

As panelinhas tão minúsculas — quatro ao todo — que minhas irmãs e eu brincávamos de cozinhadinha. A rabinha de fazer café, em alumínio puro… Cada uma das irmãs — as quatro — têm as suas miniaturas.

No baú, a foto em preto e branco, a última carta escrita pela minha mãe e uma caixa de chapéu com os riscos de bordados que ela criou. Tudo exposto dentro de minhas lembranças.

Agora que o tempo ultrapassou o próprio tempo, conto os anos que cada objeto tem. Alguém da família disse uma vez: tal mãe, tal filha. Como se as relíquias guardadas nas caixas, expostas em uma mesa com a toalha de crochê fossem tralhas.

Cada um deles tem um significado,

com nossa história particular.

Das minhas coisas, para além da herança, a fita de veludo laranja que enfeitava minhas tranças, o caderno de poesia com as letras miúdas que eu “roubei” da irmã mais velha. O primeiro vestido da sobrinha com flores miúdas azuis… A primeira camisa do meu filho, que eu mesma costurei quando ele completou um mês… O papel da balinha e o palito do sorvete que dividi com Ana — a de Marte — os tsurus e os quadrinhos com os kanjis… O coração da Maricota — a boneca de pano despedaçada pela Meg — minha cachorrinha que já se foi…

Um único brinco em forma de grão de arroz, par do outro perdido e as lembranças tantas, expostas em um quadro único, em letras garrafais contando a minha história em delicados instantes.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Coletivo Armário das Maravilhas
Scenarium Livros artesanais

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Uma carta…

Por Mariana Gouveia

Ph: Pinterest

Minha Clarice,


Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?

Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.

Eu acho os escritores anormais.

Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…

Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?

E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?

Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.

O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.

Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…

Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.

A resignação só combina com você
até certo ponto.

Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.

Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…

Mas vou buscar a perfeição
dentro de suas palavras.

Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.

A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.

Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.

O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.

Abraço com saudades,
Sua irmã

Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite
Scenarium Livros Artesanais

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Da florada à xícara fumegante

Nasci em uma fazenda de café e cresci ouvindo meu pai se preparando para a floração – era quando a terra se vestia de noiva. Ele dizia e seus olhos brilhavam e até hoje me pergunto se ele próprio não era o noivo à espera que elas florescessem.

Depois da floração, os frutos surgiam verdes e na retórica de meu pai era a época da esperança… como se vigiasse um tesouro ele passava à revista entre os trieiros dos pés de café.

Quando o fruto amadurecia os pés se preparavam para a festa. O vermelho cobria a entrada da fazenda. Como se fosse imagem de filme ou da noiva já vestida para a festa e todos se preparavam para a colheita.

A distinção dos grãos se fazia nos trieiros e dali saía para o experimento e garantir seu nome na qualidade do café que vendia. Ele mesmo torrava, moía e preparava a bebida que nos unia ao redor da grande mesa de madeira, debaixo do pé de sete copas.

Era um dos rituais que meu fazia. E se eu fechar os olhos posso sentir o aroma e a magia daquele momento.

Como um alquimista ele misturava o pó na água e media o tempo exato da fervura… na velha radiola ele ouvia a canção que falava do rei do café e a gente sabia que, naquele momento, com a aprovação do café coado, ele se sentia mesmo um rei daquele lugar. Nunca vou esquecer daquele brilho nos olhos dele.

O tempo nos levou para longe daquele lugar, embora alguns rituais permaneçam, hoje quem torra e mói o café – sob o olhar atento dele – é minha irmã. A velha xícara de ágata ainda é a mesma e o brilho no olho hoje retrata a saudade, embora ele nunca mais tenha falado sobre o cafezal, a radiola ainda toca o disco de vinil da sua canção favorita.

O que sei sobre o café devo a ele. A textura, o sabor e o aroma sempre me levam pelas mãos para aquele tempo da infância e juventude. Outras simbologias me ligam ao café. Ainda tenho o bule de ágata verde musgo e meu café é coado com o coador de pano que eu mesma faço.

Não é raro nas minhas tardes sentir o cheiro de café sendo coado na casa de algum vizinho e como se fossem puxadas por um fio, as memórias me trazem os instantes que me fizeram ser hoje o que sou… nessa hora, eu bebo a saudade em uma xícara fumegante lembrando do homem que hoje é apenas se intitula como meu pai, mas no fundo é ainda, o meu rei.

Mariana Gouveia
Coletivo| Scenarium 8
O Café dos Loucos
Scenarium Livros Artesanais