Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Da florada à xícara fumegante

Nasci em uma fazenda de café e cresci ouvindo meu pai se preparando para a floração – era quando a terra se vestia de noiva. Ele dizia e seus olhos brilhavam e até hoje me pergunto se ele próprio não era o noivo à espera que elas florescessem.

Depois da floração, os frutos surgiam verdes e na retórica de meu pai era a época da esperança… como se vigiasse um tesouro ele passava à revista entre os trieiros dos pés de café.

Quando o fruto amadurecia os pés se preparavam para a festa. O vermelho cobria a entrada da fazenda. Como se fosse imagem de filme ou da noiva já vestida para a festa e todos se preparavam para a colheita.

A distinção dos grãos se fazia nos trieiros e dali saía para o experimento e garantir seu nome na qualidade do café que vendia. Ele mesmo torrava, moía e preparava a bebida que nos unia ao redor da grande mesa de madeira, debaixo do pé de sete copas.

Era um dos rituais que meu fazia. E se eu fechar os olhos posso sentir o aroma e a magia daquele momento.

Como um alquimista ele misturava o pó na água e media o tempo exato da fervura… na velha radiola ele ouvia a canção que falava do rei do café e a gente sabia que, naquele momento, com a aprovação do café coado, ele se sentia mesmo um rei daquele lugar. Nunca vou esquecer daquele brilho nos olhos dele.

O tempo nos levou para longe daquele lugar, embora alguns rituais permaneçam, hoje quem torra e mói o café – sob o olhar atento dele – é minha irmã. A velha xícara de ágata ainda é a mesma e o brilho no olho hoje retrata a saudade, embora ele nunca mais tenha falado sobre o cafezal, a radiola ainda toca o disco de vinil da sua canção favorita.

O que sei sobre o café devo a ele. A textura, o sabor e o aroma sempre me levam pelas mãos para aquele tempo da infância e juventude. Outras simbologias me ligam ao café. Ainda tenho o bule de ágata verde musgo e meu café é coado com o coador de pano que eu mesma faço.

Não é raro nas minhas tardes sentir o cheiro de café sendo coado na casa de algum vizinho e como se fossem puxadas por um fio, as memórias me trazem os instantes que me fizeram ser hoje o que sou… nessa hora, eu bebo a saudade em uma xícara fumegante lembrando do homem que hoje é apenas se intitula como meu pai, mas no fundo é ainda, o meu rei.

Mariana Gouveia
Coletivo| Scenarium 8
O Café dos Loucos
Scenarium Livros Artesanais

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