Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Álbum de fotografias

O cabelo, da avó –
enrolado no alto da cabeça, preso
sem nenhum fio suspenso

O olho perdido, distante
como quem busca por uma palavra
Família.

Todos enfileirados em pose
para mostrar a essência –
do sobrenome que todos
carregavam.

Em preto e branco,
o momento registrado

Faz companhia ao neto
em noites de insônia
Memória futura – vasculhada
nas gavetas da estante da sala.

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo do Clube do Livro artesanal Álbum de Fotografias
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Do nó cego ao bordado na alma

Na minha lista de mulheres que me fizeram o que sou, ela não é a primeira.  Mas, é o meu modelo e teve grande influência em tudo que sou. Talvez ela nem saiba que dentro da mulher que sou existe o espelho da mulher que ela é.

Da primeira lembrança, tenho um registro para mostrar: uma foto em preto e branco. Ela vestida de caçadora para uma apresentação da escola. Eu tinha cinco anos e ela… quinze. Eu via a minha irmã mais velha como uma rainha.

Anos mais tarde, a imagem da normalista transformava-se em deusa. O uniforme azul claro – com saia plissada, sapato de verniz, meia três quarto, camisa branca e a gravata – me encantava.

Eu reconhecia o barulho do ônibus que a trazia para casa, todo fim de tarde. Ficava com olho comprido, aguardando que surgisse na estradinha de chão batido para correr até ela e saber tudo que ela havia aprendido durante o dia. Ela não sabe, talvez desconfie… que foi inspiração para a minha poesia, a minha arte e o meu coração porque eu queria ser igual a ela ao crescer.

Vi minha irmã acompanhar a nossa mãe na luta pela vida. Acompanhei a descoberta do amor por um homem e o nascimento dos filhos. Eu sabia que ela era forte, corajosa e precisou ser valente para superar as perdas sofridas. Tempos difíceis que foram se acumulando. A vida exigiu muito dela e ela nem sabia de onde tirava as forças.

Mas eu sabia, era do seu coração. Aprendi com ela o que era cuidado ao vê-la lidar com o nosso pai como se fosse um filho.

Bordadeira e desbravadora. Consciente e sonhadora. Senhora dos rituais da nossa família. Da bá a avó Mariana que não conheci. Mulher da lida com a terra e com os ciclos: do plantio à colheita.

Em nossa linhagem ancestral… é a Matriarca que se vê refletir nos risos das netas. Que aprendeu a cerzir os erros, alinhavar os sonhos e costurar as lembranças em abraços.

E quando pega a tesoura, tecidos e linhas parece consciente de seu papel no mundo… Inspirar!

Quando nos encontramos, ela ainda é a minha “Mia” e quando canta para Manu, Maria e Bianca eu me misturo a elas e completo esse nosso ciclo, de mãos dadas, repetindo cantigas que aprendemos juntas.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Coletivo Clube do livro Artesanal Ciranda – De quantas mulheres somos feitas.
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – The book is on the table

Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.

Bambina mia,

fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.

O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.

Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…

De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…

Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.

Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado.
Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Trapézio

 

Estar com ela tinha a sensação plena do voo.
De repente me pediu pra cantar. Uma musiquinha de criança…
Não cantei, ela fez charme e mesmo não dedilhando canções a melodia invadiu espaço dentro da alma.
De novo a sensação do voo, água na boca. Quase turbilhões de borboletas na barriga.
E foi riso…e mergulhei sem rede. Não tive medo. Me joguei.
Sei lá. Não sei que nome dou pra essa coisa na barriga que envolve e que devora, que tal qual criança na noite do Natal a espera do pacote abrir.
Me abri. Os braços, quase alados, quase asas. Indo, vindo. O espaço era meu. Não. Melhor, o espaço era nosso.Amplo. Lá embaixo, picadeiro sem rede. Mas o amparo era nítido.
Era colo.
E assim, a magia se faz e a gente voa junto. A respiração corta e a respiração vem.

De um pequeno instante,a sensação agradável de estar ali, invadindo espaço, braço.
O palpitar do coração na melodiosa canção do amor e a plenitude de dominar o céu.

Quer saber? Até hoje  subo no estendal de roupa onde meu coração ficou preso.

Foi o primeiro delírio de um voo rasante de uma provável série de outros que virão. Aliás, acho que viverei nesse trapézio constante em alucinógenas doses de me entregar nos braços dela.
Quero andar nesse caminho de céus coloridos, com borboletas de cores variadas a voar suavemente em torno dos meus pés.
Em volta tudo lembra magia e é bom, nem é preciso fechar os olhos.
Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.
Eu queria que eu só existisse pra essas coisas e pro amor. Daquele momento de borboleta me peguei a derramar do limite das asas, uma chuva de flores.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto um domingo de abril.

Foi como se você estivesse aqui e coubesse toda nos meus braços e voasse em mim…

Mariana Gouveia
Art: Larissa Marques

Corredores, Codinome Locura

Por aqui a lua jantou com Vênus

Por aqui a lua jantou com Vênus

Vem quase tudo
do que tu dizes

é como ter a respiração acelerada.

Jantei sombras de sol,
luas de metamorfose.

Bebi…

Achei lindo beber lua
e até me embriaguei aqui.

Estou a cata de inspiração

pra ver se te encontro e do que tu te alimentas;

o mel nos teus lábios…bebi.
Tudo em ti  me sabe
a sal
e é doce, doce

como a saudade
e eu sorvo cada sabor
da delicadeza dos instantes.
É nos seus braços que me inspiro.
Deve ser por causa do eclipse solar.

Por aqui a lua jantou com Vênus
numa clepsidra de sonhos.

Sonhei contigo.
Seus goles me sorviam

e passou depressa.
Mas ficou cá dentro
uma imagem tua,

aquela imagem
que não esqueço.
Não quero esquecer

e no toque lento de tuas mãos.
Árida estou e ardo
e sou
todos verbos.

Verbalizo,
úmida,
sou gutural, estaminal.

Te vejo,
as minhas mãos imitam as tuas
passam em mim iguais.

Aperta-te…

Para eu sentir
a marca
procurando o tudo e nada.

O teu corpo
se funde no meu,

a minha morada tardia
e eu que ardia de desejos
no deserto de concreto,

tenho sede.

Não sei nada de AMOR.

A minha boca já sabe a tua
e cresce
uma nascente de água…

tua estaminal.
É no céu da tua boca, meu paraíso

verbal,
mas tão real que te sinto
e vou ao delírio.

Quente como o areal
no sol

que eu: ardente desejo
que me deu

sabes de amor agora?
Sim!
Um sentimento,
pequenas conversas,
várias nuances

que fica.

Quero tua resposta.
Tu és meu coração
perdido.

Eu acho-te
no repetir

dos momentos,
dos meus
encantos
mesmo quando
acabo
e quem disse que é preciso estar juntos pra estar perto?
Acabo e ardo

Mariana Gouveia – Das delicadezas dos Instantes

Corredores, Codinome Locura

as lembranças me chegam sempre em dias tão vazios

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As lembranças sempre me chegam nos dias vazios. Era eu em tuas fotografias. O vento uivava no morro e ali, a vida parecia cor de rosa.
Te mostrei a florzinha azul. Falei da delicadeza do lugar. A aliança tinha ar majestoso na mão. Você tremia.
Não era chuva, mas tinha gotas a cair do céu em uma garoa que não era do lugar – ou pelo menos, eu nunca tinha visto – e você se deslumbra com a visão do céu ali. Quase tocamos as nuvens com as mãos. O dia era para ser feito de magia.
A timidez dominava seus olhos. Eu te via como a rainha do lugar. Era eu, indivisível olhos de amor.
Falei do mar que você me trazia e que ali, já havia sido um oceano. Era história contada nos livros. Onde as flores azuis nasciam – sua cor – foram encontrados fósseis marinhos. Um, que parecia estrela – eu vi – e quase pulei de alegria quando te contei.
Você falou da estação que sobrevivia os dias e de como era intenso o lugar.
Tenho todas as estações na mão. Em mim, tudo era primavera quando você estava.
Seus olhos se perdiam na imensidão do tempo. Passou-se tanto depois disso.
Lembro que no fim do dia o sol apareceu. Eu te cantei uma canção e fomos embora achando que a vida era isso.
Hoje, num dia vazio a saudade abre a tampa das lembranças e eu deliro – deve ser a febre – o dia parece igual àquele.
Já não é mais primavera em mim, mesmo dentro da estação das flores e a florzinha azul, ficou extinta e nunca mais nasceu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sobre(vivência)

 

Inaugurava em mim o outono
e a voracidade dos dias.
Mora dentro de mim as tuas digitais
e os caminhos que percorro em tua pele
a folha que cai enquanto o corpo treme
é preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia

infinitamente · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Das metades de tantas, (eu) inteira

Ph: Steve Richard

Inventou a si mesma
no pretérito imperfeito
cada vez que tocava
sem jeito seu corpo
via as palavras
da mãe, da irmã
o pecado em palavra,
dedo em riste
o incômodo das que eram submissas


– nunca quis isso para si –
sabia que cabia dentro dela
as promessas de prazer
como se fosse dia de chuva

Sabia-se única
e ainda assim sentia
um abismo de sujeições. 
Um céu fotografado em dia de sol
tal qual nuvem dissolvida
em várias formas
com o carimbo da ancestralidade
na pele
um marco geodésico das outras
de sua linhagem, o sangue –
feito nuvem vermelha
em dia intenso.

Mariana Gouveia
Coletivo de Poesias Mulher de Nuvem
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

e o silêncio se fez de vento no varal 

Quando rasguei o nome no peito…Tirei do ventre a palavra voo e chorei pelos números de nomes que voaram entrelaçados dentro da ausência vivida. Nem era dia especial e o silêncio se fez de vento no varal e as esperas aconteciam e a gente sabia que não ia chegar. Algumas partidas acontecem como voos de pássaros ou como pouso em um dia de silêncio.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para memórias futuras…

Su, minha menina nuvem,

confesso que vou guardar essa noite, essa lua, essas nuvens em gavetas para memórias futuras. Foi ontem, tudo isso, e você deve saber o momento. Estou em um tempo passado e muitas vezes, esqueço esse fuso de uma hora a menos.

Mas, para que saiba o que senti e de tudo que meu céu, nesse quadrilátero dos muros que o rodeia tem, guardo em palavra, escritas sob um céu, de um lado, estrelado e ao centro, uma lua belíssima – cheia – e quis te mostrar.

Você sabe bem que a vida é esse afago de alma, de lembranças, de cheiros… eu moro tão longe do mar e nesse momento, nesse meu desaforo de fuso, o mar veio junto com a lua, as nuvens e uma brisa que nem tem cheiro de rio – mas de mar mesmo – ruas abaixo do meu lugar.

Sorvi o chá que fiz a pouco. Meu pé de capim limão está vibrante – culpa das chuvas dos últimos dias – o aroma das flores do alho e que nem cheiram a alho invade essa noite de lua cheia e há cheiro de bolo assado na vizinhança. A minha vizinha da direita faz delícias a essa hora da noite – culpa do trabalho – e de madrugada. Um dia, conto mais sobre isso.

Sabe, Su, há um silêncio no quintal. Até os grilos calaram… e vi, no canto do lado do sul uma luzinha de vagalume – seria impressão? – e a sombra, quase vulto, de Chiquinho dormindo no varal perto de mim…

Vejo vultos logo para além das ipomeias e sons de folhas caindo e as asas de um morcego – recém visitante por aqui – que assusta o meu amor – num vapt vupt que faz ele soltar impropérios que nem ouso repetir. Ele é geminiano e tem medo dos vampiros… vê se pode!! Fecha as portas e janelas e fica me rondando aqui fora, como se o bicho fosse me esvair em sangue… logo ele, que odeia ver o líquido vermelho jorrando – seja em filmes, novelas, e cortes… mesmo os pequenos – fica como se fosse me proteger…

Mais uma vez, rodeio o pescoço com os olhos no céu… as nuvens se dissiparam. Dizem que pode chover a qualquer momento, mas já vi a moça da previsão errar tantas vezes, que meu sopro de ar vai para essa carta para que você guarde para memórias futuras, de uma noite em que eu te vi no céu do meu lugar, brincado de lua, enquanto você se graduava em outro momento, de um céu, do seu lugar.


Beijo meu,
Mariana Gouveia