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Amanhã é dos loucos de hoje…

9, junho,

O sol amanheceu ofuscado por uma névoa e a manhã aconteceu fria. Fiquei pensando depois de ler seu texto sobre as bibliotecas e a pergunta que você ouviu por aí: Para que ainda existem bibliotecas? Não tive tantas bibliotecas em minha vida… e as poucas eram de uma simplicidade que eu confundia com as prateleiras da minha casa – que tinham mais livros do que pratos – de onde a maioria do livros havia saído da nossa casa, dos livros que ganhávamos. Eu já conhecia todos os exemplares e enquanto para os meninos da região as figuras eram mais importantes, incluindo meus irmãos, eu queria ler histórias. Na pequena cidade, na região que nasci-cresci-vivi até os 11 anos a escola tinha uma sala que comportava uma mesa, quatro cadeiras e algumas poucas prateleiras de livros tão antigos, que alguns se desmanchavam quando eram tocados. Quando eu cheguei em Cuiabá, a minha primeira procura por biblioteca foi na escola onde fui matriculada… Uma sala ampla, com prateleiras de alumínio, e muitos livros, numa desordem que talvez só a moça que cuidava da sala soubesse organizar… haviam vários livros empoeirados. Ela disse que quase ninguém entrava ali e a sala se tornou meu refúgio preferido. Passava horas lendo entre uma fileira de livros quando podia ou quando uma aula fosse cancelada por algum motivo. O mais engraçado é que a primeira biblioteca grande que fui me causou espanto porque os livros eram difíceis de pegar… não havia escadas e as prateleiras eram enormes. O senhor que cuidava daquela biblioteca tomava conta do acervo mais do que de qualquer outra coisa. Contava os anos que passava dentro daquela sala e que seus dias vividos ali dariam um livro. As fileiras iam quase até o teto e ele puxava um fio, onde descia exatamente o livro que a gente pedia. O casarão antigo parecia mais um palácio e assim era seu nome: Palácio da Instrução e suas prateleiras enormes, preenchidas de alto a baixo com os mais variados livros e meus olhos procuravam os títulos deles e me arrepiava quando via algum que queria ler. É estranho como a biblioteca lá da minha infância feita de caixotes de frutas, com suas prateleiras de tábuas mudou a pessoa, a leitora e a escritora que eu sou. A paixão pelos livros nunca mudou e já me peguei também várias vezes olhando as prateleiras por trás das reportagens de algum entrevistado na TV só para saber o nome ou a capa do livro atrás dele e dentro do ônibus meu olho procura ver a capa se algum pessoa estiver lendo, o que se tornou mais raro hoje em dia. O fato é que as bibliotecas são lugares de conhecimento e embora em sua grande maioria tenham mudado a forma de pesquisas e estudos ainda existem lugares como onde eu nasci levando aprendizados e sonhos, e algumas prateleiras ainda são feitas de tábuas e caixotes.

Mariana Gouveia

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