Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Ao semear,

cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida

Molhava os dedos com a língua
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
in, Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Pinterest

Colheita · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Semeadura

Lhe disseram que em noite de eclipse
Semear é quase fazer amor com a semente…
Buscou no calendário pela data certa
Mas o gozo chegou antes e a semente brotou…

Muitas vezes… duvidava
da cronologia da semente.

Mariana Gouveia
Colheita
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Perdeu o significado das ervas…

o caderno que ganhou
era para anotar as espécies
– era o que o pai dizia –
Passou a escrever poemas nas linhas
– era a sua forma preferida de gozo
O dedo enfiado na terra.
A semear-se…

– no próprio coração! A coragem –
Nem era semente isso – alguém dizia
Mas, em muitas noites de lua,
enquanto todos iam colher as flores
para remédios nos campos
Plantava a solidão – nos vasos da cozinha

Pegava – com cuidado – a faca
Abria a semente –
entre a janela da varanda
e o caos interno

Sufocada com o dom que ganhara na infância não queria mais plantar!
Matou a semente com um só golpe.

Mariana Gouveia
Colheita
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Colheita

Alguém lhe contou a versão da história da jardineira que fazia trança das memórias com as sementes que plantou.

Com sua bolsa a tiracolo…
ela ia espalhando as sementes
de um lado da estrada na ida…
E como vivia os dias a ir
– para algum lugar –
Escolhia aonde semear.

Virou lenda!
A mulher que sabia plantar.

Ainda hoje… tem a bolsa cheia de sementes
E ao andar pelas estradas…
Vê os canteiros floridos de lembranças suas…

Mariana Gouveia
Colheita
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Habituou-se a semear todas as noites,

Nos canteiros… feitos durante o dia
a lua ensinava como tocar a terra

Minguante mata sementes frias…
esquentava as mãos uma na outra
E aspirava o ar quente de si
… o dedo colhia prazer no corpo
Escondido dentro do vestido de florzinha.

Mariana Gouveia
Colheita
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Cavou com as próprias mãos

a terra
– os dedos tocando a maciez
Aprendeu – ainda menina – a lua certa
– O cio exposto na pele –
e de novo semeou o gozo
colocou as sementes e salivou
Na alma
Proferiu insultos
e germinou vontades

Mariana Gouveia
Colheita
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Colheita

Desde pequena, o pai a armou de sementes
A parteira que a viu nascer rezou e desejou-lhe o dom
de semear.

Era assim com os irmãos, com as meninas dos vizinhos… com toda a gente que via nas vielas, trieiros e caminhos.
Ria e oferecia sempre potinhos prontos com terra, adubados… e as sementes – germinadas.
Com ramificações a criar vidas.
Ajudava a molhar a terra
A vida, era feita de lágrimas e nem toda semeadura era boa.

Depois que plantava
contava os dias no calendário
Sabia a data exata que o broto surgiria na terra

A folha crescendo…
o olho acompanhando o rito do amor
Acontecia de várias formas no quintal

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Xing Jianjian

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Colheita

Descobriu que a terra devia sentir o gozo com o toque das mãos
Feito a pele… em noite de lua.
Tem lua que é ideal
para semear… e gemer!
Em noite de lua cheia,
toda loba uiva ao semear
desejos no corpo.

Ao semear, cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida.

Molhava os dedos com a língua e
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
Colheita
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Ph: Pinterest