Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.
Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.
Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.
Mariana Gouveia
