Crônicas · Literatura · Outubro Literário

O Espaço que a Memória Pede.

Quando eu era menina, na fazenda, um dos bichos que mais me encantava era o bicho-lixeiro — um crisopídeo que meu pai chamava de Fortuna. Ele ia acumulando em suas costas as pragas do jardim: pedrinhas, restos de folhas, pulgões e uma variedade de coisinhas que encontrava em seu caminho. Era sinal de sorte — segundo meu pai — encontrá-lo em meio a uma folha, uma planta. Era um sinal de colheita boa. Fortuna devia ser um nome que traduzia os “tesouros” que ele carregava em suas costas. Achei um aqui no quintal esta semana. Lembrei-me de várias falas de meu pai sobre não acumular coisas e outros ditados que ele conhecia tão bem.

Fiquei pensando sobre o que acumulei ao longo da vida senão memórias, afetos e palavras. Há uma diferença profunda entre guardar o passado e deixar-se soterrar por ele. O tempo, em seu curso natural, costuma demolir quarteirões inteiros da nossa geografia física e emotional, e o choque diante das ausências muitas vezes nos empurra para a tentação do acúmulo. Cuidar de um quintal portão adentro me ensina, dia após dia, que a vida exige uma poda constante. Para que a horta simples prospere, para que os cactos encontrem sol e a physalis floresça com delicadeza, é preciso abrir espaço. É preciso ter a coragem de arrancar as ervas daninhas que tentam sufocar o agora. Não é sempre que a gente tem um bicho-lixeiro na vida.

Talvez sejamos apenas as escolhas que fizemos entre o que reter e o que deixar ir. Há quem transforme o próprio corpo e a própria casa em cômodos escuros, encolhidos e cheios de entulho, como se cada objeto recolhido ao acaso fosse uma tentativa desesperada de preencher um silêncio que assusta. São os colecionadores de passados estáticos, criaturas que, na pressa de reter a história de cada casarão ou de cada esquina que ruiu, esquecem-se de que a memória, para continuar viva, precisa de vento e de frestas. Faltam-lhes espaço interno para novos começos.

Já colecionei selos, papéis de carta, figurinhas do Amar é… Mas hoje fujo do excesso. O meu minimalismo não é uma recusa ao afeto, mas uma reverência a ele. O que se acumula hoje aqui são as sementes replantadas, as flores que acenam em um botão que se contorce nas pétalas que mais parecem abraços, ervas para o chá e uma flor medicinal que brota na terra, na sombra mansa do ipê ou no eco de um trovão que parece responder ao nosso chamado em tardes de tempestade. As lembranças mais bonitas não ocupam lugar na prateleira; elas flutuam leves, feito a rabiola de uma pipa cortando o céu limpo.

Quando a noite esparrama suas sombras pelo muro do quintal, dou por encerrada a limpeza dos meus canteiros. O bicho-lixeiro sumiu entre as folhagens. Desligo o ruído do mundo e percebo que, ao limpar o excesso das calçadas, o que sobra é o essencial: uma xícara de café coado há pouco, um livro aberto e a vastidão de um silêncio que não me assusta, porque finalmente aprendeu a ter espaço para caber a saudade.

Mariana Gouveia

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