Caro Manoel e bambina mia,
Ao cair da tarde nesta segunda-feira, quando o vento frio toma o quadrante do muro, o sol não aparece há dois dias. O inverno resolveu dar o ar de sua graça já nos dias finais da estação. Os pássaros que dormiram aqui começam a acordar o dia com seus chilreios. É nessa hora máxima do dia que reacende em mim a sua poesia. Os grilos calaram seus cricris e, só ouço o vento batendo na janela. Isso me leva para os paletós de flanela que minha mãe fazia. Pelo jeito, hoje é dia de olhar os passarinhos ciscando e ler seus livros.
É engraçado pensar que você nasceu aqui. Dias desses passei na rua onde dizem que você nasceu. Foi um suspiro imenso saber que ali, naquela ruazinha quase morta, foi o palco de um mestre que mudou minha maneira de ver a escrita. Nossos livros favoritos são, no fundo, espelhos dessas tramas que escolhemos desbravar. Ao mesmo tempo, é lindo saber que a mesma natureza que me revela também faz parte do que você tanto escreveu.
Há também uma autora que arranca arrepios na minha pele. Mas dessa vez, ao invés do manejo com o olho da lagartixa, com o canto dos passarinhos e as ignoranças do desassossego, ela me traz o sensorial. Então, ao te escrever, meu caro Manoel, trago pelas mãos a Lunna — como parte inclusa dessa missiva —, palavra que ela adora e na qual se acha intrusa, às vezes, quando lê missivas destinadas a outras pessoas. Talvez, meu caro, você gostasse também de Vermelho por Dentro. Confesso que a escrita dela me rasga.
Se eu contar sobre os autores que mudaram a minha forma de ver o mundo e me deram a dignidade da palavra, devo afirmar categoricamente que eles não habitavam os salões acadêmicos. Alguns dos seus livros estavam guardados na estante de madeira da fazenda em Goiás, esperando o momento em que a menina de pés descalços subiria no telhado ou na colina da cruz para conversar com o invisível. Ler os clássicos sob a cobertura de palha de babaçu foi o meu primeiro Café de Flore — onde a Lunna, anos mais tarde, captou a personagem ideal para o seu romance, que é um dos meus favoritos também. Foi ali que compreendi que a literatura é esse território frágil e perigoso onde saltamos sem paraquedas, aceitando os nossos próprios abismos. Ou onde o olho desvia para o sapo que coaxa a palavra descabida de rimas.
Acho bonita essa demora de anos para que o rascunho-promessa finalmente encontre o seu rumo e rompa o chão do papel. A escrita exige essa maturação lenta, esse tempo de pouso onde as migalhas de pão deixadas pelo caminho vão se transformando em alimento para a alma. Não importa se a inspiração vem de uma artista de cabelos revoltados em Paris ou do canto do sabiá laranjeira que desafia o frio do meu lugar e mergulha na bacia cheia de água como se fosse um rio: o que nos funda é a capacidade de reter o impacto do outro em nós, transformando o movimento do universo em narrativa viva. Foi assim com você e assim o é com Lunna. Autores distintos, apaixonados pela arte da escrita, com a palavra rompante saindo da lapiseira.
Com meu carinho,
Mariana Gouveia
