Janeeeeeeee,
Há dias em que o ruído do mundo parece teimar em se vestir com a aridez dos galhos secos. O inverno se despede deixando poeira, os homens se espremem em suas certezas duras e a polaridade lá fora tenta sufocar a nuance das coisas simples. É nesses momentos de compasso de espera, quando a falta de paz que a realidade promove aperta o peito, que meu pensamento voa longe e vai buscar abrigo no território de nós duas.
Olho hoje para o meu quintal e flagro um milagre manso que imediatamente me fez lembrar de você e da sua casa. Um periquito rei, com o verde mais vivo que a natureza consegue pintar, pousou exatamente no meio das vagens retorcidas e secas do ipê. Fiquei olhando aquela criatura de olhos alaranjados, tão parecida com o seu papagaio, e compreendi, Janes, que a delicadeza do primeiro broto verde nem sempre é uma folha tenra que cresce devagar. Às vezes, o broto que nos salva da aridez tem asas, chega sem pedir licença e faz barulho no galho que parecia morto. Ele é o anúncio de que a vida continua pulsando, à revelia dos desertos humanos. Eu sei que o seu bica, arranha, mas também sei que ele te dá a melhor manifestação de afeto.
Escrevo-te para te dar coragem diante do cinza que tentam nos impor. Em outros tempos, eu estava aí com a xícara de chá, sendo sua consciência — igual ao Grilo Falante — impedindo confrontos que te fariam infeliz. Sei que o cenário atual exige muito dos nossos dias, mas lembre-se da menina que fomos e dos caminhos que trilhamos. É preciso ter a audácia de continuar conversando com as coisas do mato, limpando as gramas do nosso próprio chão e abrindo espaço para que o inédito aconteça. Que o verde do seu companheiro de penas aí na sua casa seja o seu lembrete diário de resistência. Não se entregue à bruteza do tempo; mude o foco do olhar, equilibre o passo no meio-fio do cotidiano e colha a poesia que nos salva dos desacertos.
Quando o dia findar e a noite reivindicar o seu pouso, saiba que a nossa órbita continua alinhada pela gravidade do afeto. Que você cultive sons bonitos no meio do barulho e encontre no silêncio do seu canto a força necessária para romper o chão de amanhã. Minha escrita atravessa a distância para te lembrar que nunca estamos sós enquanto houver asas para vigiar o horizonte.
Com todo o meu carinho,
Sua Tarzan
Mariana Gouveia
