Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

A Caligrafia das Coisas e as Palavras de Chão

As palavras possuem uma espécie de anatomia secreta; algumas pesam como pedras na memória, enquanto outras possuem asas e sabem exatamente onde pousar para acalmar a nossa falta de paz. Certos termos estrangeiros chegam como ruídos, enquanto vocábulos antigos desaceleram o corpo, provocando arrepios por dentro da pele. Imediatamente me pego listando as expressões que governam o meu próprio microcosmo. Há palavras que herdamos dos nossos antigos que não estão nos dicionários elegantes, mas que carregam o cheiro exato da terra molhada. Você, por exemplo, não gosta de petricor… já eu, adoro! Acho que nela já vem o aroma da terra sendo beijada pela chuva.

Crescer conversando com as coisas do mato me ensinou que nomear o mundo é um ato de pura feitiçaria afetiva. No meu dicionário de infância, aprendido nos tempos da fazenda e cultivado hoje aqui no meu lugar, as palavras mais bonitas são aquelas que guardam a doçura e a beleza dos ciclos naturais. Gosto do compasso de “espera”, da firmeza de “raiz” e do sotaque manso que transforma caju em “cadju“, aproximando a pronúncia da própria textura do fruto colhido no pé. São palavras de chão, sem o verniz ou os aborrecimentos da comunicação moderna, escritas com a caligrafia simples de quem sabe ler os desenhos das nuvens e o tempo da semente.

Acho bonita a rejeição ou o apego que desenvolvemos por certos nomes, heranças de portões de cemitério ou do modo delicioso como as nossas mães pronunciavam as letras na cozinha. Nossas escolhas linguísticas revelam os nossos esconderijos mais secretos. Para mim, a palavra que muda o rumo de um dia inteiro e me devolve a dignidade do silêncio é “quintal”. Quando a pronuncio, as paredes da casa parecem se afastar, o cursor na tela branca ganha a pulsação de um carrilhão antigo e o mundo lá fora perde a sua poluição barulhenta. É um termo-abrigo, que cabe dentro de qualquer tarde morna.

Ao final do dia, quando fecho os cadernos e observo o Yoshi encolhido no travesseiro da sua cadeira, percebo que escrever é apenas o nosso jeito de colocar envelopes reais ou imaginários nas esquinas do tempo. Não precisamos das fórmulas prontas do mundo para nos fazermos entender; basta que a nossa escrita guarde o eco daquilo que fomos e a certeza do chão que pisamos. O seu idioma, por exemplo, me veste na palavra encantamento. O bambina mia — como eu te chamo — evoca em mim uma imensa ternura, tal qual o seu mi manchi… e é com esse sentimento que meu quintal atravessa o seu. Que aí você cultive sons e silêncios e eu, cá no meu canto, cultive as palavras que têm raízes ou asas.

Mariana Gouveia

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