Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Há árvores que funcionam como verdadeiras sentinelas do nosso destino. Ouço relatos de vidas costuradas pela sombra perfumada das jabuticabeiras, acompanhando mudanças e florescendo em quintais antes esquecidos, e imediatamente olho para os guardiões do meu próprio chão. Aqui no meu lugar, as boas-vindas da nova estação não chegam com o negrume dos pequenos frutos colados ao tronco — o pé que tenho aqui ainda está em fase de bebê, com folhas tenras, coloridas e miúdas que crescem tão devagar que já ameacei arrancá-lo várias vezes —; chegam com a explosão silenciosa e urgente do ipê amarelo. É ele quem me avisa que, apesar da bruteza do inverno e da poeira que insiste em cobrir a madeira, a terra nunca esquece o seu compromisso com a beleza.

O ipê ensaia o seu espetáculo na fresta dos dias secos. Olhar para os galhos que pareciam sem vida e, de repente, flagrar os primeiros salpicos de ouro rasgando o azul do céu é um abalo agradável que repercute por dentro do peito. Assim como as estações afetam o corpo e mudam o rumo da escrita, a floração do ipê altera a minha própria geografia interna. Ele exige atenção. Obriga-me a esticar os braços, a erguer os olhos além do quadrante do muro e a agradecer pela permanência das coisas que fincam raízes. Enquanto o vento morno balança suas copas, sinto um arrepio na pele que é, no fundo, a caligrafia da própria primavera se anunciando.

Acho bonita a fidelidade de quem acompanha o crescimento de uma árvore ao longo de uma vida, tratando-a como cúmplice de romances escritos e cafés tomados na proximidade de suas folhas. Minhas cumplicidades com o mato são feitas desses reencontros anuais, onde o amarelo cai com aquela leveza de quem tem medo de tocar o chão, cobrindo a terra úmida com um tapete sagrado. Não precisamos mudar de cenário para entender o milagre da renovação; basta sabermos cuidar do pedaço de chão que nos foi confiado, seja limpando as folhas secas ou observando os seres alados que fazem dali o seu porto seguro.

Ao final da manhã, quando a luz solar doura a copa do meu guardião e o Yoshi se ajeita na sua cadeira, percebo que cada quintal tem a árvore que merece. Eu sou feita de sol e terra, abençoada pelo ouro que brota do galho seco. Olho para o alto, respiro o ar lavado e deixo que o amarelo me guie pelos próximos começos.

Mariana Gouveia

3 comentários em “O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Deixe um comentário