
Bambina mia,
se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.
Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.
Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.
Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.
Mariana Gouveia