
Luci,
Vi que você disse que, nos últimos tempos, tem visitado árvores e, quando vi esse pé de ipê para além da rua de cima, lembrei-me de você. Acho que isso é o que faz a vida ficar mais bonita. De longe, eu o avistei; seu dourado emoldurava a rua, e fui seguindo a cor até encontrá-lo. Lá estava ele, majestoso e imponente. Vi também sobre o pedaço da revista que você guardou. Percebi que se fosse eu a pessoa entrevistada pela revista e me perguntassem: “O que lhe faz genuinamente feliz?” — ah, Luci! Eu diria que era ouvir o barulho das abelhas e dos pássaros nas flores do ipê amarelo.
É como um presente dar flor, sabe? E já aconteceu comigo também. Ganhei uns potinhos de sementes e plantei, cuidei de tudo. Desde aguar a terra a conversar com os rebentos e, por fim, os botões surgiram. Até fotografei na época. É como você mesma disse, Luci: as coisas bonitas da vida não são as coisas. A gente sabe disso e apenas ri diante do vento. Ou de uma réstia de sol que rouba um pequeno rasgo da telha. Era onde a Lolla gostava de deitar, a quase um palmo do nariz dela. Hoje vi esse rasgo de novo e resolvi te escrever.
Você me mostra o horizonte sob outra perspectiva, Luci. Quando você diz que sua rua tem uma tristeza bonita, ou quando vejo a Celestine — que eu amo tanto sem conhecer. Eu também acho os postes das ruas feios, coitados. Falo baixo para eles não ouvirem, mas na madrugada, quando o vagalume do meu lugar passa por eles, mesmo sem gotas de chuva, eles parecem setas indicando caminhos para o céu.
Eu bebi chá de gengibre e limão para uma coisa que nem sei o que é, Luci. Achei lindo o seu chá de cardamomo e rosa. Mas aqui, o calor beira os 40º e lembro-me de que ainda é agosto. Às vezes, penso em você numa rua de agosto e lembro-me da fotografia do caminhão de repolho e você ali, musa, confiando em árvores, pombos e seguindo as regras do sindicato.
Ah, Luci, às vezes, a vida é como uma árvore vista da janela do trem.
Te amo!
Mariana Gouveia