Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

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